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Mulherão

Restava saber como a mulher do Luizinho reagiria a uma proposta retributivista

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2019 | 10h06

O Luizinho nem reagia mais quando chamavam sua nova mulher de mulherão. A nova mulher do Luizinho era realmente muito bonita. Grande e bonita. Tão grande e tão bonita que logo se instalou o debate na mesa do bar em que a turma costumava se encontrar: ela não seria grande e bonita demais para o Luizinho? 

Não era uma questão de duvidar da capacidade do Luizinho de administrar, por assim dizer, tudo aquilo. Nem se discutia o direito de o Luizinho, apesar do seu tipo franzino, ter uma mulher daquelas dimensões. A questão, no fundo, era de justiça. Valda – o nome dela era Valda, como as pastilhas – era mulher demais para um homem só, fosse quem fosse o homem ou que físico tivesse. Monopolizando uma mulher como aquela o Luizinho a estava, assim, dizer, sonegando-a. Alguma coisa, por justiça, tinha que sobrar para os outros. Aquilo era até uma metáfora perfeita para concentração de renda no País, não havia como não se revoltar. Onde estava a solidariedade? 

Restava saber como a mulher do Luizinho reagiria a uma proposta retributivista. Fez-se uma rápida enquete no grupo, no fim da qual foi escolhido o Romualdo para testar a receptividade da Valda. Romualdo, o Mualdão, era simpático e bem-falante, além de ser casado com a Titina, que já estava acostumada com sua fama de conquistador, e até fazia pouco dele, dizendo “Esse galo é só de cocoricó”, e todos riam. Todos no grupo eram casados. O último a casar fora o Luizinho.

E é preciso dizer que os homens do grupo respeitavam as mulheres do grupo. Ou, como dizia o Mualdão: “Mulher de amigo, pra mim, é homem feio”. Mas também é preciso dizer que nenhuma das mulheres do grupo era um mulherão como a Valda. Romualdo foi escalado para descobrir, com jeito, se Valda era ao menos cantável. Uma vez estabelecido isso, pensariam nos passos seguintes. Era necessário avançar com cuidado. Ninguém queria magoar o Luizinho, logo o Luizinho. Mas quem mandara ele casar com um monumento?

O máximo que Romualdo conseguiu com Valda foi uma conversa mais íntima longe da atenção do resto da mesa. Na qual Valda contou que era uma mulher com um apetite sexual equivalente ao seu tamanho, e que já tivera muitas experiências na vida, mas nada comparável ao que encontrara com o Luizinho, que a satisfazia plenamente. Luizinho era o homem da sua vida. O homem definitivo.

Naquela noite, quando chegaram em casa, Titina, com o pé batendo no parquet, quis saber o que Mualdão e Valda tanto tinham conversado no bar. Mualdão foi obrigado a contar tudo. O que Valda tinha contado sobre o Luizinho, tudo. Na noite seguinte, sentado ao seu lado no bar, Luizinho sentiu a mão de Titina por baixo da mesa, numa missão de reconhecimento.

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