Juliana Torres/Divulgação
Juliana Torres/Divulgação

Mulatas nos bastidores

Série do Canal Brasil mostra a vida das passistas sem plumas e paetês

Patrícia Villalba, O Estado de S.Paulo

01 de fevereiro de 2011 | 00h00

Moradora de uma das comunidades do agora tão famoso Complexo do Alemão, na zona norte do Rio, Márcia Anjo decora bolos de aniversário para viver, e também aplica cabelo falso, faz salgadinhos para festa sob encomenda, vende Natura. Mas apesar de viver bem ao lado da Imperatriz Leopoldinense, é bem distante dali, na quadra da Mangueira - "pagando a própria passagem de ônibus", frisa - que ela brilha como mulata. "Eu amo a Mangueira de graça", diz ela para a também passista Rafaela Bastos, apresentadora da série Mulatas, que estreia hoje, às 20h45 no Canal Brasil.

Nestes tempos em que se buscam novos formatos televisivos de maneira frenética, o programa, dirigido por Walmor Pamplona, demonstra que não há como errar quando se tem uma boa história nas mãos. No caso, são 13 episódios sobre 13 mulheres que se mostram sem as plataformas vertiginosas e os penachos esplendorosos - mas é claro que, no final, elas sambam um pouquinho, sim.

Mas o melhor é mesmo surpreendente ouvir quantas histórias essas moças têm para contar, algo que vai muito além daquela já tradicional ladainha sobre "como se preparar para aparecer linda na avenida".

Márcia Anjo é a estrela da estreia, para quem ser mulata é um estado de graça. "Há dois mundos da mulata, vamos dizer", explica ela para Rafaela, geógrafa e também passista da Mangueira. "Tem você ser mulata e você querer ser mulata."

Sincera, divertida e bem humorada, a carioca perseverante conta que o "Anjo" não é nome artístico, mas nome de batismo mesmo, dado pelo pai adotivo que a encontrou jogada no lixo, quando bebê. "Acho que meu nariz era feio, e ela não me quis", conclui, disfarçando bem a desgraça, coisa de gente do samba.

Mãe de oito filhos - quatro seus e os outros quatro do irmão que morreu -, ela deixaria muitas daquelas celebridades carnavalescas de ocasião com o queixo caído, ao contar como esculpiu o corpo que chegou a pesar 154 quilos. Mas a melhor história a de como ela se montou toda como passista - "Não esqueci nem do cílio postiço" - para dar um show num ponto de distribuição de drogas, com o objetivo de tirar o filho das mãos dos traficantes. "Se eu tivesse uma mãe como a senhora, não estaria aqui agora", teria dito o tal traficante.

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