Muitos fins para amparar os meios

Livro de Paul Berman em torno de filósofo islâmico abre polêmica com liberais

Dwight Garner, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2010 | 00h00

THE NEW YORK TIMES

O novo livro de Paul Berman, The Flight of the Intellectuals (A Fuga dos Intelectuais, em tradução literal), no plural, poderia facilmente se intitular A Fuga do Intelectual, no singular. Ele é basicamente uma polêmica do tamanho de um livro contra um artigo de revista: um perfil do filósofo islâmico Tariq Ramadan, escrito por Ian Buruma, o acadêmico e jornalista holandês, e publicado na The New York Times Magazine em 2007.

O livro de Berman já fez algum barulho. Escrevendo em Slate, Ron Rosenblaum comparou sua contundência a uma daquelas velhas pancadarias na Partisan Review em que Dwight Macdonald ou Mary McCarthy acertavam a cabeça de algum pretenso amigo desavisado com uma estante ou um copo de uísque. E, de fato, tudo em The Flight parece velha guarda, do tom de Berman (indignação controlada, quase tântrica) ao espetáculo de um homem respeitado de esquerda esmurrando outro enquanto o sangue escorre e ninguém telefona para a polícia.

Aquelas brigas na Partisan Review ficaram sérias, e o mesmo acontece com The Flight of the Intellectuals. Berman acusa Buruma de não escolher o suficiente a família, as associações e os escritos de Ramadan, de apresentá-lo como o tipo de pensador islâmico moderado e carismático em quem o Ocidente poderia encontrar um intermediário.

Berman expande o terço final do livro para condenar intelectuais liberais (especialmente Buruma e o historiador britânico Timothy Garton Ash) e os órgãos em que publicam, incluindo The New York Review of Books, por outro motivo relacionado. Ele escreve que embora tenham admirado Ramadan, eles foram inexplicavelmente críticos a Ayaan Hirsi Ali, a intelectual holandesa de origem somali que se tornou importante crítica do Islã e, por consequência, provavelmente terá um grande destacamento de segurança pelo resto de sua vida. Os críticos de Hirsi Ali, que incluem Buruma e Ash, acham sua personalidade "estridente" e azeda e sentem que ela não é tão importante quanto poderia ser porque ao ter renunciado ao Islã, não fala mais à, nem está em contato com a consciência coletiva muçulmana.

Há muito de fins justificando os meios em The Flight of the Intellectuals. São acertadas várias contas que muitos leitores não conhecem e com as quais não se importam. Mas esse livro estimulante é importante e devastador em suas conclusões sobre a história secreta de alguns islâmicos e, em especial, sobre a recepção de Ayaan Hirsi Ali. "Ficou óbvio que Hirsi Ali recebeu um tratamento pavoroso de jornalistas, que deviam saber mais das coisas", escreve Berman. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

THE FLIGHT OF THE

INTELLECTUALS

Autor: Paul Berman

Editora: Melville House

(Importado, 220 págs.,

US$ 22,95; Kindle: US$ 16,30)

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