Muito mais que um grande ator

Em Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, Irandhir Santos é só uma sombra, mas já desponta como revelação

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2010 | 00h00

 Nos anos 1940, o ator e diretor Robert Montgomery realizou uma curiosa experiência de cinema subjetivo em Hollywood, dirigindo (e protagonizando) A Dama do Lago, um filme noir em que era o personagem principal, mas no qual não aparecia, exceto nos breves momentos em que cruzava com um espelho, por exemplo. A experiência não é exatamente a mesma, mas Karin Aïnouz e Marcelo Gomes, a dupla criadora por trás de Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, mescla ficção e documentário no filme que estreia hoje e cujo protagonista também não aparece. Esse homem é um geólogo enviado para o sertão com o objetivo de estudar a viabilidade de transposição das águas de um rio para aquela região árida.

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Trechos de Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo

Viajo nasceu como curta-metragem, do encontro dos dois cineastas com o sertão ligado à memória de ambos. Mas o projeto não satisfazia a Gomes nem a Aïnouz. Dez anos depois da captação das imagens, eles o retomaram e, por meio do artifício da narrativa em off, deram um sentido àquelas imagens. Viajo não é sobre o sertão, mas sobre o desertão, um espaço da carência afetiva e da experimentação cinematográfica. O narrador, que empresta sua sombra - e ela, com um detalhe de mão, é só o que aparece dele -, é "interpretado" por Irandhir Santos. Estamos lhe apresentando o ator brasileiro que passou a ser visto como a sensação do cinema nacional. No dia 21 estreia Quincas Berro d"Água e Irandhir é um dos amigos que carregam o corpo do homem morto pela noite de Salvador, no filme que Sérgio Machado adaptou do romance de Jorge Amado. Logo em seguida, ainda em maio, virá Olhos Azuis, de José Joffily. E, no segundo semestre, ainda sem data, Irandhir será o antagonista de Wagner Moura no aguardado Tropa de Elite 2, de José Padilha.

Mas acontece uma coisa muito interessante com os diretores que trabalham com Irandhir Santos. Nenhum deles diz que é um ator talentoso, ou mesmo um grande ator. No set de Tropa 2, Padilha usou para o repórter outra palavra e foi ela que Machado repetiu no Recife, onde Quincas foi exibido na semana passada, durante o Cine PE. Para ambos, Irandhir é "gênio". O narrador onipresente é uma sombra em Viajo Porque Preciso. Estamos dando um rosto à sombra. Apresentamos-lhes o gênio em acaso, Irandhir Santos.

Ele olha para o repórter com cara de quem não entende, durante a entrevista realizada num hotel do Recife, no fim de semana. Irandhir muda tanto, de um papel para outro, que é bom perguntar, mesmo brincando, se ele é mesmo daquele jeito - do que jeito que você vê na foto - ou se também está "disfarçado". Mudar, de um personagem para outro, faz parte do "cerimonial", e Irandhir Santos usa muito a palavra. "Um professor de teatro no Recife foi quem me iniciou nesse ritual. Como ator, é o que me alimenta. Venho do teatro, e o cerimonial de criação do personagem faz parte da minha bagagem."

Mística. Padilha usa outra palavra para definir o comportamento de Irandhir. Diz que ele é o ator mais "concentrado" que já viu. José Joffily compartilha da opinião. Tudo isso vai criando uma mística em torno de Irandhir. Você já o viu, com certeza. Ele teve pequenas, mas importantes, participações em Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes, e principalmente em Baixio das Bestas, de Cláudio Assis. Foi o Quaderna da adaptação que Luiz Fernando Carvalho fez de A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna - uma experiência maravilhosa. Com todo o elenco de Carvalho, Irandhir ficou meses pesquisando para criar o personagem. Criou-se uma expectativa muito grande - para sua família. Afinal, ele seria astro de uma microssérie da Globo. A Pedra não aconteceu. Irandhir permaneceu "anônimo".

Ele até gosta - acha que serve aos personagens. Mas como todo ator, ele deve ter um componente narcisista em sua personalidade. Não anseia ser reconhecido pelo público? Irandhir ri. Desconversa. Ser uma "celebridade" não faz parte de suas aspirações, mas reconhece que, antes mesmo de seu trabalho começar a aparecer para o público, as coisas estão começando a acontecer. "Um trabalho tem chamado o outro." O personagem de Quincas é um ex-militar que caiu na esbórnia com o ex-funcionário público que dá título ao filme.

Antagonista. Em Tropa de Elite 2, é um professor que servirá de antagonista para o ex-Capitão Nascimento - foi promovido a coronel -, integrando ONGs em defesa do cidadão e refletindo sobre o sistema carcerário que não recupera criminosos, mas os aprimora para que a polícia, depois - as milícias -, os executem. Em Olhos Azuis, é decisivo para desencadear a reação do protagonista, o policial gringo, interpretado por David Rasche.

Todos personagens diferentes. Para cada um deles, Irandhir criou uma persona. Mas ele não se preocupa com o que cada um possa ter dele. A questão é sempre inversa. Como ele pode criar essas figuras tão distintas? O teatro, e Stanislavski, lhe dão as ferramentas, mas nenhum personagem é ele, embora seja todos. O Irandhir que você vai descobrir agora é só uma sombra. Mas olhe bem para a cara dele. Irandhir está chegando em filmes que prometem, e vão dar o que falar. Não se trata de dizer que está nascendo um astro. Você vai descobrir um ator. Não um ator qualquer - um gênio, segundo os importantes autores que já o dirigiram.

LEMBRA DELE NA TELEVISÃO?

Irandhir Santos foi Quaderna da adaptação que Luiz Fernando Carvalho fez de A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, para a Rede Globo (disponível em DVD). A minissérie foi mal de audiência. Se fosse por ela, talvez o ator tivesse permanecido anônimo. Mas ele diz: "Foi uma experiência maravilhosa."

PRESTE ATENÇÃO...

1. Quincas Berro d"Água. No filme de Sérgio Machado, com estreia marcada para o dia 21, Irandhir interpreta um dos amigos que carregam, pela animada noite de Salvador, o corpo do homem morto (Quincas), do conhecido conto de Jorge Amado.

2. Tropa de Elite 2. Na sequência do incensado filme de José Padilha, ainda em fim de filmagem, ele é um professor, antagonista do personagem de Wagner Moura, e integrante de uma ONG em defesa do cidadão. Sua cena é tocante.

3. Olhos Azuis. No filme de José Joffily, seu papel também é decisivo para desencadear a reação do protagonista, o policial gringo interpretado por David Rasche. Ele ganhou o prêmio de melhor ator coadjuvante no Festival de Paulínia.

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