Muito além dos carnavais

O Almanaque Abril, importante fonte de informações, está completando 37 anos de publicação, mantendo, nos capítulos da seção Cultura, uma subseção sobre a música popular brasileira. Nela, a edição de 2010 incorporou um dado novo: pela primeira vez a obra mencionou o nome de Zeca Pagodinho, fazendo-o, porém, da seguinte forma: "(Na década de 1990) Os gêneros de maior sucesso são o pagode - Só pra Contrariar, Negritude Junior, Zeca Pagodinho - a axé music (...) e a música sertaneja (...)". Mas nada registrou sobre o samba nos anos 80; o que parece confirmar ideia segundo a qual o samba teria sido uma manifestação viva e dinâmica apenas até o advento da bossa nova.

Nei Lopes, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2011 | 00h00

Em um simples olhar para trás, vamos ver, primeiro, que o samba existe há mais de um século, o que se comprova a partir de referências textuais que remetem à era escravista, como as seguintes: "Batuque na cozinha, sinhá não quer" - diz uma letra famosa. E outra: "Eu vim preso da Bahia só porque fui namorado da dona de Eu, Iaiá". Esta, intitulada Patrão, Prenda Seu Gado, aborda a relação amorosa entre um escravo e a mulher ou filha do senhor. A partir daí, podemos estabelecer uma linha cronológica das transformações e recriações do samba.

Na primeira República, o registro de Pelo Telefone, em 1917, impulsionava a popularização dos sambas-maxixe de Sinhô e Caninha, entre outros, na década seguinte. Então, nasceram, no período de 1928 a 1931, os "sambas do Estácio", gênese do samba urbano, conjunto em que se pode incluir parte da obra de Noel Rosa. De 1935 a 1940 seguem-se o samba-choro sincopado, o samba-exaltação e o samba de breque. A década seguinte vê nascerem: a mescla de samba e boogie-woogie criada por Denis Brean; o samba-enredo, consolidado com o Tiradentes, do Império Serrano, lançado em 1949 e popularizado em 1955; e o samba-canção. Nos anos 50 e 60 consagram-se os sambas da bossa nova e o samba-jazz, sua expressão instrumental; os sambas "esquema novo" de Jorge Ben; o sambalanço, feito para dançar, no universo de Ed Lincoln e Miltinho, etc. Nos anos 70 aparece o "sambão-joia" (Benito de Paula, Agepê, etc.) então abominado, mas hoje reconsiderado; e, na década seguinte, o pagode.

Sobre esse importante estilo, informemos que ele vem das primeiras gravações do grupo Fundo de Quintal, nas quais harmonias ousadas e melodias rebuscadas, apropriadas para o canto coletivo, somam-se a uma percussão inovadora. Em 1985, a vertente se consolida a partir do lançamento do LP Raça Brasileira em que surge para o grande público, entre outros, o mencionado Zeca Pagodinho. Fincado na tradição do partido-alto, o estilo pagode colocou também em destaque refinados compositores como Almir Guineto, Arlindo Cruz, Jorge Aragão e Luiz Carlos da Vila, todos interpretados pela cantora Beth Carvalho. Entretanto, pouco depois, uma diluição industrial do pagode lançou grande confusão sobre a definição do estilo; o qual foi, certamente - há de ser devidamente avaliado -, tão importante quanto o fora a bossa nova no fim da década de 1950. Na atualidade, porém, com músicos como Seu Jorge e os do grupo Farofa Carioca, além dos paulistanos do Clube do Balanço, entre outros, tudo já se recria novamente.

A ideia, então, de que samba é apenas música de carnaval, além de equivocada é maldosa. E atitudes como a "cultização" do chamado "samba de raiz", em vez de serem proveitosas, só fazem é consolidar a visão do gênero-mãe de nossa música popular como raridade de museu.

Muito pelo contrário, o samba é um dos mais significativos produtos da indústria cultural brasileira. Então, devemos pensá-lo também como um item importante da economia criativa, gerador de riqueza e emprego. E, quando falamos "samba", vamos além da escola de samba também. Pensamos no incremento à produção de discos, filmes, livros, e à veiculação de programas de rádio, TV e internet; na criação e manutenção de uma memória audiovisual, com um mostra permanente desse conteúdo; em grandes eventos de massa, para além dos desfiles carnavalescos.

Tudo isso, evidentemente, com a plena garantia dos direitos dos criadores; contra o "liberou geral" da internet e a "ciber-malandragem" das flexibilizações e licenças compulsórias. Questões às quais, pelo que percebemos, o novo Ministério da Cultura já está devidamente atento.

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