Muito além do exótico

Videobrasil revela semelhanças de linguagem entre realizadores de diferentes origens

Antonio Gonçalves Filho , O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2013 | 02h12

A 18ª edição do Festival de Arte Contemporânea Sesc Videobrasil será aberta hoje no galpão e no segundo andar do ginásio esportivo do Sesc Pompeia, reunindo 94 artistas de 32 países na mostra Panoramas do Sul, assim chamada por privilegiar a produção de realizadores do Sul geopolítico (América Latina, Caribe, África, Oriente Médio, Europa do Leste, Sul e Sudeste asiático e Oceania). Um dos primeiros festivais dedicados à arte eletrônica, o Videobrasil completa 30 anos trazendo outra mostra com destaques de suas edições desde 1983, além de produções recentes de grande repercussão lá fora, como Bosphorus: a Trilogy, vídeo feito em Istambul pela iraniana Bita Razavi, que vive em Helsinque, e My Father, do paquistanês Basir Mahmood.

Entre os artistas selecionados para esta edição do festival, destacam-se nomes revelados pelo Videobrasil e que hoje frequentam mostras internacionais, como o libanês Akram Zaatari, presente com o polêmico vídeo The End of Time, que discute, entre outros temas, a homossexualidade no meio muçulmano. Zaatari esteve na última Documenta de Kassel e tem uma sala especial na Bienal de Veneza. Dos convidados brasileiros, destacam-se a performer Lenora de Barros, a pintora Flávia Ribeiro, o fotógrafo Pedro Motta e o coletivo Chelpa Ferro. O segundo andar do galpão de esportes do Sesc Pompeia foi adaptado para a mostra, ganhando em dimensão e conteúdo.

A idealizadora e diretora do festival, Solange Farkas, chama a atenção para as semelhanças estilísticas e temáticas entre videomakers e cineastas de diferentes origens, como o tailandês Apitchatpong e os integrantes do coletivo brasileiro Madeirista, grupo sediado em Porto Velho que se reúne desde 2001 para produzir videoarte e intervenções urbanas. "Em ambos os casos, a paisagem ocupa o primeiro plano e você percebe articulações e estratégias entre artistas que se apropriam da linguagem do vídeo para produzir novas formas de arte", observa a diretora, que também integra o quarteto de curadores da mostra Panoramas do Sul (os outros três são Eduardo de Jesus, Fernando Oliva e Júlia Rebouças).

A seleção de produções vindas de países em crise traz, entre outras obras, Kabul Fragment 04 - Ordinary Heroes?, da realizadora afegã Jeanno Gaussi, que mora em Berlim e trabalha principalmente com a questão da identidade cultural no mundo globalizado. Nessa obra, por exemplo, ela destaca um vendedor em trajes militares fotografando os visitantes de um zoo e inserindo-os num cenário de guerra. O cineasta israelense Dor Guez, de origem cristã, outro realizador que explora a questão da identidade, focaliza, em Scanograms #1, a comunidade cristã no Oriente Médio. "Dor Guez vai estar na próxima Bienal de São Paulo", revela Solange Farkas, classificando seu Arquivo Cristão- Palestino como um projeto perturbador de reconstituição de imagens da diáspora.

Ela destaca ainda o trabalho da israelense Orit Ben-Shitrit, Vive le Capital, que, apesar do título, é um manifesto anticapitalista feito por meio de uma anticonvencional coreografia e rigorosa construção formal. "É um dos mais bonitos da mostra", define a curadora. A israelense é uma artista interdisciplinar, que faz uso de movimentos coreografados para tratar de temas como dominação e violência provocadas pela disputa de capital.

Há também espaço para vídeos intimistas no Videobrasil, além do citado The End of Time, de Akram Zaatari, sobre o começo e o fim de relacionamentos homossexuais na comunidade muçulmana. Um dos mais cotados é My Father, do paquistanês Basir Mahmood, que mostra o pai do realizador tentando enfiar linha numa agulha. Sem muito sucesso, evoque-se.

VIDEOBRASIL

Sesc Pompeia. Rua Clelia, 93, tel. 3871-7700.

De 3ª a sáb., das 9 h às 22 h (dom., das 9h às 20 h).

Grátis. Até 22/2. videobrasil.org.br

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