Anderson Christian/Divulgação
Anderson Christian/Divulgação

Muito além do bater do tambor

Depois de Salvador, Percpan chega hoje ao Rio, ampliando sua abrangência no universo da percussão mundial

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2010 | 00h00

Um punhado de boas atrações internacionais inéditas e raras no País e grupos brasileiros em ascensão retumbaram alto nos palcos do Teatro Castro Alves e da Concha Acústica, em Salvador. Foram três noites de surpresas e satisfação até mais do que normalmente acontece no Percpan - Panorama Percussivo Mundial.

Com o antropólogo paraibano Hermano Vianna e o jornalista e pesquisador espanhol Carlos Galilea na curadoria ao lado de Beth Cayres, antropóloga e empresária que dirige o festival desde o início, foi notável a abertura de horizontes nesta edição. Muito além do bater do tambor, os ritmos, estilos e texturas que se aglutinaram e se fundiram nesses oito shows são resultado de dinâmicas combinações sem limite territorial ou fórmulas engessadas.

Teve hip-hop com jazz, música cigana com toques latinos, mariachi e rumba com tecno, música afro-peruana com house e reggae, batuque africano com funk e mambo, pós-pagode baiano com hard rock.

O étnico e o eletrônico, o tradicional e o experimental, o pungente e o festivo, o improvisado e o ensaiado, o dançante e o contemplativo, o novo e o ancestral - tudo isso pode aparecer em qualquer grande festival de música progressista e dita "globalizada", mas não da maneira concentrada e objetiva como se viu aqui, onde a previsibilidade passou longe.

Nada parecido vai acontecer neste fim de ano, com toda essa avalanche de festivais em São Paulo. Um elenco desses, de bandas desconhecidas do grande público, dificilmente se verá de novo por aqui - como outras preciosidades que o Percpan já trouxe nesses anos todos. Por isso, quem tiver a oportunidade de ir ao Rio esta semana, não perca.

É uma pena que - por problemas decorrentes de entraves burocráticos na aprovação da lei de patrocínio - São Paulo desta vez será contemplada apenas com o luso-angolano Buraka-Som Sistema (na quinta), que não tocou em Salvador, mas se apresenta no Rio na quarta, dividindo a noite com os cariocas do Bloco Cru no Canecão. Estas são duas atrações que diferem do elenco de Salvador. Outra mudança é a inclusão da sensacional Orkestra Rumpilezz, do maestro baiano Letieres Leite, na Noite Sopro-Percussiva (amanhã no Teatro Oi Casa Grande), que teve os paulistas do Projeto Coisa Fina (uma das bandas do Movimento Elefantes), na abertura da etapa soteropolitana.

Foi a noite mais coesa do festival, com apresentações impecáveis do Coisa Fina, da Kocani Orkestar (Macedônia) e dos americanos Hypnotic Brass Ensemble, de Chicago. A Rumpilezz - saudada por Charles Gavin como "uma das melhores coisas surgidas na música brasileira nos últimos anos" - tem tudo a ver com isso. É um encontro digno dos maiores festivais de jazz do Hemisfério Norte. Só coisas finas.

A segunda noite em Salvador, que reuniu bandas de três continentes, revelou algo curioso, uma vez que as linguagens se fundiram. O quarteto feminino português As Tucanas (que se apresentaram com um DJ convidado) dedicou uma bela canção à Bahia e a Iemanjá, incluindo água na performance. Além disso, elas também homenagearam as mulheres batuqueiras de Cabo Verde. Na falta de melhores referências, houve quem se referisse a elas como um misto de Uakti, Stomp e Barbatuques, já que utilizam tambores, instrumentos inventados e percussão corporal. Mas não é nenhum demérito às graciosas meninas, que incluem movimentos de dança e canto à performance e fizeram o show mais sutil e cheio de nuances do festival, com momentos bem vigorosos.

Exuberância. A Orchestre Poly-Ritmo de Cotonou (Benin, África) é uma tremenda de afro-funk, cuja sonoridade tem elementos de jazz, soul e até ritmos cubanos. Seus nove integrantes de diversas idades ganharam o público de cara, com um irresistível manancial rítmico, melodias tocantes e passos de dança. A certa altura o alegre trompetista desceu à plateia e interagiu com o público trocando passos frenéticos. É uma exuberância sonora e cênica que emociona, superando qualquer barreira de idioma.

Tanto o Novalima (Peru), como o Nortec Collective (México) fazem fusões curiosas de ritmos de seus países com eletrônica. Mas o altíssimo volume de som do Novalima acabou afugentando do teatro muita gente que não aguentou a estocada. O Nortec, na Concha Acústica, contou com público reduzido e fez um show interessante, mas um tanto frio, na penumbra e com muito som pré-gravado.

Por fim, o baiano Edcity empolgou seu fã-clube na Concha com uma espécie de pós-pagode reforçado com elementos de rock, hip-hop e discurso antirracista.

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