Muitas novidades - 2

A história do pai desnaturado que anunciei no domingo passado me foi contada como verídica. Em Itaparica, ninguém mente, de maneira que com certeza é mesmo. Trata-se do pungente drama vivido por uma família cujo sobrenome, muito importante para o desenrolar dos acontecimentos, aqui será mudado, para não causar problemas. Deu-se que, em certa época, em certa localidade da ilha, um jovem pobre, mas muito trabalhador e esforçado, subiu na vida e criou coragem para pedir em casamento a filha mais nova dos Pimentéis, orgulhosa família descendente de barões do tempo das baleias e de nariz franzido tão empinado que o povo chamava a matriarca de "Quem Bufou?". A família fez tudo para que o noivado não se concretizasse, mas a moça também estava apaixonada pelo rapaz e não houve jeito. Acabou, para se livrar de mais chateação, cedendo a uma exigência do velho "Foi Você" (apelido natural para ele: a velha fazia cara de "Quem Bufou?" e depois o velho vinha atrás, olhando para todo mundo com cara de "Foi Você"). Tudo bem, haveria o casamento, mas nenhum dos filhos do casal levaria o humilde "dos Santos", sobrenome do rapaz. Portariam o orgulhoso Pimentel, mas nada de Santos.

João Ubaldo Ribeiro, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2012 | 03h09

Acontece que não contavam com a altivez e a astúcia do itaparicano. Para não encompridar a história, o casal teve três filhos e o pai botou neles os nomes de Fulano, Beltrano e Sicrano Pimentel. Dizem que até hoje os parentes brigam para mudar os nomes, situação complicada porque Beltrano e Sicrano se solidarizaram com o pai e registraram os filhos mais velhos como Beltrano Júnior e Sicrano Filho. Já Fulano, compreensivelmente, não fez a mesma coisa, porque puseram nele o apelido de "De Tal", foi muita crueldade da parte da voz do povo. Perguntavam "quem é aquele?" e respondiam "ah aquele é Fulano de Tal, mas pode chamar de De Tal mesmo, que ele atende".

Ainda por cima, por uma circunstância linguística, o "De Tal", pois que o pessoal da happy hour das seis da manhã embola um pouco as consoantes, acabou percebido por muitos como "Dedal" e De Tal passou a também ser conhecido pela alcunha de Dedal, o que - vejam como é esta vida ingrata - levou certos preconceituosos a opinar que ele devia ser costureiro de altas modas afrescalhadas e, portanto, falso ao corpo, designação hoje politicamente incorreta, mas nessa época ser gay não estava ainda na moda e o sujeito precisava ser muito macho para encarar a complexa situação em que ele se viu.

O fato é que a história teve um final melancólico para Fulano, que, na busca de sossego, se mudou para Nazaré das Farinhas, mas dizem que não se deu tão bem, talvez por ter ganho novo apelido, deve ser sina. Lá em Nazaré, me contam que ele é conhecido como Esse Menino e ninguém sabe o nome dele - quer dizer, o sujeito não consegue ser nem Fulano, nem De Tal, é duro. E comentam que o pai desnaturado acabou se consumindo na cachaça, mas nunca arrependido do que perpetrou. Dizem que, pouco antes de morrer, questionado sobre os nomes dos filhos, teria respondido grosseiramente que eles ainda deram sorte, porque os nomes iam ser Merdêncio, Caguêncio e Bostêncio, mas o escrivão sempre achava que pegava mal e não fazia o registro, mesmo que a propina fosse mais gorda que a de um alto governante federal.

Depois desse flagrante da vida real, passo ao também prometido furo de reportagem. Em todos os meus anos de jornalismo, nunca dei um furo de reportagem e fico até meio nervoso. Durante minha mais recente estada na ilha, Zecamunista me visitou algumas vezes para conversar e pronunciar algumas festejadas conferências, mas não deixou transparecer nada de seus planos mais audaciosos. Parecia estar inteiramente concentrado em aperfeiçoar o projeto de instituição do Comitê Proletário de Defesa do Vernáculo, após ter tido algumas experiências traumáticas, a última das quais envolveu uma pizza.

- É bem feito, que é para eu esquecer pizza, o pastelão gordurento que italiano não come e é monopólio do imperialismo ianque e das multinacionais de remédio contra azia! - bradou ele. - E ainda por cima é delivery. O indivíduo pede que lhe entreguem uma pizza e o sacaneta corrige: é delivery, senhor. É delivery a mãe dele, minha pizza é entregue, eu faço questão de que ela seja en-tre-gue! Se o governo não garante nada, pelo menos garanta que a gente vai continuar a entender o que se fala. Eu vou contar o que esse infeliz me disse. A pizza já estava demorando quase uma hora e aí eu liguei para reclamar e sabem o que ele falou? Ele disse "Eu tinha colocado para o senhor de que a delivery ia estar atrasando". Foi isso o que ele me disse e eu quase vou lá com minhas pistolas para fazer justiça pessoalmente e restaurar o primado do homo sapiens, é legítima defesa, estão assassinando a língua portuguesa, são uns antropoides!

Somente no último dia foi que ele me chamou a um canto e confidenciou o que agora é furo de reportagem: fará uma rara visita ao Rio de Janeiro, algum dia do próximo mês. No seu dizer, "a mulher carioca é a deusa no pedestal alcandorado de meu coração e a diaba na usina lasciva de meus nervos tropicais", mas não é bem por ela que ele vem. Pretende fazer no Rio o lançamento nacional dos Bem-te-vis da Pátria, entidade cívica que congregará os brasileiros vigilantes, sob o grito de guerra "Bem Te Vi, Ladrão!". Os militantes usarão camisetas estampadas com um bem-te-vi de binóculo e carregarão um apito que imita o canto do bem-te-vi. Cada vez que passar um político ladrão, apito nele, assim como em estádios, auditórios e demais locais públicos.

- Confio no Rio de Janeiro para salvar o nosso povo - disse Zeca ao telefone, emocionado. - Ainda vamos ler no jornal que um safado desses foi bem-te-vizado para fora do Posto 9.

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