Muita festa no centenário do poeta

As comemorações do centenário de CarlosDrummond de Andrade começaram no ano passado, com decretos dosgovernos federal, de Minas e do Rio dedicando-lhe o ano de 2002,e chegam ao auge em outubro, mês de seu nascimento. Parte doseventos depende de patrocínio, mas a família já aprovou mais dedez homenagens. Muito justas, segundo a professora Ângela Garcia, do Departamento de Letras da Universidade Federal do Rio deJaneiro (UFRJ): "Não se fala em literatura no Brasil semDrummond", diz. "Ele está para a poesia como Machado de Assispara a prosa. Ambos têm qualidade e também são populares. Todomundo conhece um personagem de Machado e sabe de cor pelo menosum verso de Drummond."Ângela coordena um seminário que reunirá críticos literários,pesquisadores, poetas, atores e adaptadores da obra de Drummond,de 14 a 16 deste mês, no campus da Ilha do Fundão, na zonanorte. Os cantores Ruth Steark e Inácio Nomo e o clarinetistaRuy Alvin abrem o evento executando uma peça erudita de CirleyHollanda sobre a crônica O Que Se Diz. No encerramento, aatriz Cássia Kiss lerá poemas selecionados, ao som de improvisosda flautista popular Lena Horta. Entre um evento e outro, mesasde debates com professores de cinco universidades, poetas (comoo letrista Antônio Cícero e o imortal Ivan Junqueira) e aestréia do documentário O Poeta das Sete Faces, de PauloThiago.Nas escolas públicas de primeiro grau, o ano letivo deu inícioàs homenagens. Os alunos escrevem poemas inspirados na obra dopoeta. O espetáculo E Agora, Drummond, dirigido por MariaPompeu, vem sendo apresentado uma vez por semana, comdramatização de textos do poeta. "Misturamos títulos bempopulares com outros menos conhecidos, para as crianças teremdimensão da obra", conta o coordenador da programação, HenriqueAzevedo. "Em 31 de outubro, teremos um grande evento, comestudantes de todo o município", conta.A reedição da obra de Drummond pela Record, que detém osdireitos de publicação, também já está em andamento. Dez títulosjá foram lançados, inclusive Alguma Poesia, de 1930, que nãohavia mais saído em volume independente, e a AntologiaPoética organizada pelo próprio poeta. Os volumes têm capaspadrozinadas, iniciativa que divide os puristas.Gravações - Drummond sempre cuidou da edição de seus livros, desenhando ourevisando as provas de texto e capa. Mas a iniciativa maisheterodoxa é o uso de gravações de Drummond dizendo seus versoscom acompanhamento de ritmo de funk. A produção é do tecladistaBilly Foghieri (ex-Blitz), com total aprovação dos netos dopoeta, que planejam clipes de Quadrilha, José e NoMeio do Caminho, três dos poemas mais conhecidos da obra.Menos polêmico é o disco Reunião, o Brasil Dizendo Drummond,do selo Luzes da Cidade, que reunirá artistas e celebridades. Oprodutor Paulo Lima gravou Paulo Autran dizendo Amar, TôniaCarrerro em O Caso do Vestido e Aracy Balabanian declamando ODesaparecimento de Luíza Porto, e pretende contar também com aparticipação de Pelé, do publicitário Mauro Salles, do senadorArthur da Távola e de uma pessoa a ser escolhida em concurso. Olançamento está previsto para o segundo semestre.Em junho, estréia em Belo Horizonte, o espetáculo de dança SemLugar, do grupo 1.º Ato, baseado na obra de Drummond. Oescultor Léo Santana inaugura a escultura do poeta no Arpoador,em Ipanema, um dos lugares preferidos de Drummond, no Rio.Há planos também de relançar as poesias inspiradas em Cervantese Cândido Portinari. O livro reúne 21 Quixotes desenhados porPortinari ao mesmo número de poemas de Drummond baseados nasilustrações. Há ainda planos para exposições em Buenos Aires eParis (onde ele já foi lembrado, no pavilhão brasileira do Salãodo Livro) e a tradução de sua obra em vários idiomas. Modesto, opoeta achava que dez anos após sua morte ninguém se lembrariade seus escritos. Desta vez, Drummond errou.

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