Mui amable, usted lo merece

BUENOS AIRES

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2011 | 00h00

Fim de ano. Nas ruas onde há postos de serviço, longuíssimas filas de carros nas ruas provocam congestionamentos imensos. Há falta de gasolina, os argentinos estão revoltados. Dizem que a cena se repete a cada ano. O que se vê? Pessoas carregando galões e furando as filas dos automóveis. Brasileiros já viveram esta época nos anos 80. Este é o verão mais quente dos últimos 58 anos, avisam os jornais. Excesso de turistas (90% brasileiros barulhentos, grande parte cariocas prepotentes), excesso de aparelhos de ar-condicionado, ventiladores e freezers ligados levam ao colapso de energia. Na frente dos restaurantes e lojas de grife ficam estacionados geradores gigantes, como prevenção. A cada um ou dois dias nosso apartamento em Palermo Soho viveu às escuras. Se não há energia, a água não sobe para as caixas. Falta, portanto, água.

Na hora do corte de energia sentimos a solidariedade portenha. Apenas uma fase do prédio estava desligada. Uns tinham luz, outros não. André, meu filho, percorreu vários apartamentos e todos se mostraram dispostos a ajudar. Duas senhoras quiseram apanhar as coisas de nossa geladeira e guardar na delas. Outro propôs uma maluquice. Fazer um "gato", ou gambiarra, de nosso apartamento direto ao poste da rua, declinamos.

Nas ruas, os táxis fazem desvios para fugir dos congestionamentos, aproveitamos e percorremos ruas jamais vistas, sombreadas. Porém, há brasileiros que se sentem enganados, brigam. Mesmo que se dê uma volta imensa, o taxímetro vai marcar, quando muito, 5 reais a mais. Árvores, árvores por toda a parte, e parques.

Quem esteve aqui outras vezes, percebe uma atmosfera de desencanto no ar, melancolia, a cidade está suja, meio abandonada. Trabalhadores querem aumento, bloqueiam as ruas, o Banco de La Nación prometia greve, nas casas de câmbio não havia cédulas de pesos. Mas o chinês da quitanda da esquina trocava dinheiro ao câmbio oficial, lembrando o Brasil de uma época em que havia o contrabandista de uísque, o fornecedor de cigarros americanos e o doleiro particular.

Continua a cidade onde se pode apanhar o jornal, o livro, o laptop ou o caderno e sentar-se à mesa, pedir um café e ficar. Não se tem pressa, os serviços são lentos, num tempo deles. Continuam sendo milhares os cafés e restaurantes, principalmente na região de Palermo, invadido não apenas pelos turistas, mas também pelas imobiliárias. Tanto que a região vai "aumentando", esticando segundo a conveniência das imobiliárias, assim como fazem com os Jardins em São Paulo.

Já existem vários Palermos, citados por Laura Linares e Hugo Caligaris (que nada têm a ver com o nosso Contardo, de preciosas crônicas) num livro delicioso, Buenos Aires, Dos Mil Calles e Un Gato. Palermo Velho, cujo centro é a praça Cortázar; Palermo Soho; Palermo Hollywood; Palermo Chico; Las Cañitas; Palermo Botânico; Villa Freud (reduto dos terapeutas); Pasaje Bollini, onde Jorge Luis Borges ia tomar café no bar Dama de Bollini; Palermo Boulevard; Palermo Coppola, por causa do hotel de Francis Ford, o cineasta; Palermo Queens, por causa de Villa Crespo, que eles consideram a Queens daqui, assim como há a Queens de Manhattan, Nova York; Palermo Rosa, refúgio dos gays, entre as calles Cordoba e Gascón e a Palermo Dead, nas proximidades do cemitério de Chacarita, também conhecido como Chacalermo.

Quando damos uma gorjeta, ouvimos "mui amable". Quando agradecemos, alguns nos dizem "usted lo merece", o que me parece mais poético e educado que o nosso "imagine". Garçons, aqui chamados de "mozos", praticamente já falam o português. Nos cardápios vem a descrição dos pratos e ingrediente, acrescidos de uma palavra: y algo. Seja lá o que for esse algo, traduzido para o inglês como: "and something." Aos naturalistas, um alerta: parece haver crise de granola na cidade, todos os menus naturais anunciavam a sua ausência. Semana passada, nos restaurantes estava difícil encontrar folhas verdes para as saladas, por causa da seca. Maioria dos supermercados com grandes estoques de vinho, encimados pelo aviso: vende-se apenas duas garrafas por cliente.

Peculiaridades. Na esquina da Calle Uriarte, passada a Córdoba, há um ponto de ônibus. Diante dele, o dia todo, fica um cão labrador, imenso e lindo, escarrapachado, de barriga, porque o solo é fresco. Para cada um que sai do ônibus, ele ergue a cabeça, recebe um afago, e volta ao sossego. Para alguns, que de certo considera vips, ele se põe de pé, recebe o carinho, deita-se de novo.

Homens quase todos de bermudas, compram chapéus, eu mesmo comprei um Panamá lindo, feito no Equador. Mulheres de minissaias, tecidos leves, transparentes. Crianças, bebês, nunca vi tantas crianças numa cidade, nem tantas mulheres grávidas, congestionamentos de carrinhos nos restaurantes. Celulares, iPods, iPhones por toda a parte. Toma-se Fernet Branca com Coca-Cola (não gostei), os taxistas acham Lula o máximo, os CDs custam 26 pesos, ou 13 reais, o que nos leva a questionar o preço de um CD no Brasil que beira os 50 reais. A Ziv Als, Calle Serrano, 1.445, e a Miles, dentro da Livraria Prometeu, oferecem variedades, novidades, clássicos, cults. Uma caixa com cinco CDs de Dalida (quem se lembra? Sucesso máximo, suicidou-se em 1987, achava a vida insuportável) me custou 36 pesos, cerca de 17 reais. Pode?

Com tudo isso, a cidade é agradável, barata, os táxis quase de graça, come-se muito bem por um terço de São Paulo. Anotem o Le Cluny (vejam se conseguem mesa servida pelo garçom Leonardo), o Pozo Santo (uma experiência com a comida peruana), e em Porto Madero, o Marcello e o Bice. O restaurante Cabrera continua o preferido pelos brasileiros, mas não é o melhor. Esperas de uma hora. Brasileiro adora isso! Pegar mesa na calçada significa o inferno, trânsito pela frente e por trás transeuntes batendo com a bolsa na sua cabeça. Prefiro o Lo de Jesus, na Calle Gurruchaga, 1.406, tratamento impecável, um ojo de bife sensacional, e altamente recomendado por Pietro Sorba, cujo guia "Bodegones de BA" é primoroso, por ele se descobre a boa comida ítalo-portenha e hispano-portenha. E bom ano para todos nós, que Dilma nos seja leve. Apesar do Temer, um dos políticos mais sem graça de todos os tempos, um Buster Keaton com seu rosto impassível.

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