Mudando de ramo

Madrugada meio metida a primavera berlinense, muito clara e ensolarada, mas cortada por um ventinho gélido, desses dos quais se diz fazerem com que descubramos partes do corpo que antes não sabíamos que tínhamos. Descubro algumas e lembro, não sem mágoa, que hoje em dia também percebo ossos de que na juventude não tinha consciência. Mas espano da cabeça pensamentos importunos, estufo o peito na medida do possível e me disponho a começar bem o dia, que afinal, apesar do frio, se anuncia belamente. Não passa muito das 5 e Salvatore ainda deverá estar arrumando sua prestigiosa banca de revistas, de que sou freguês leal.

João Ubaldo Ribeiro, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2010 | 01h00

De fato, lá o vejo, entre pilhas de jornais acabados de descarregar. Está particularmente elegante, com o chapéu estiloso comprado em sua recente viagem a Paris. Passou uns 15 dias fora em excursão, na companhia da patroa. Comento com ele como é chique ter um jornaleiro que passeia em Paris e ele, com um risinho que não sei bem descrever, me responde que faz tudo para agradar a freguesia. Agradecendo pela minha parte, compro os jornais de sempre, mas decido inovar. Vou tomar o café da manhã sentado a uma das mesinhas que a padaria ao lado da banca põe na calçada e dar uma olhada nos jornais, apesar de Salvatore me advertir que ler as notícias às refeições só serve para quem está de dieta, porque o apetite vai embora.

Sim, talvez ele tenha razão. Seria bom, como querem muitos, a começar pelo presidente, ler somente o que nos agrada ou nos interessa, mas infelizmente não é possível, pois seria preciso que todo mundo fosse clone de todo mundo, estivesse na mesmíssima situação e perseguisse os mesmíssimos objetivos. Pensando nisso, abro os jornais e mais uma vez constato que, apesar de não ser possível, vem-se tentando bastante que seja e, quando parecia que essa assombração já tinha ido embora para sempre, lá vem mais conversa sobre controlar a imprensa, imagino que é uma espécie de moda.

O caso da Bolívia é dos mais recentes e diz o jornal que o governo boliviano não crê que haja nada a temer, antes pelo contrário. A lei agora aprovada e prestes a ser regulamentada apenas proíbe a veiculação de ideias racistas. Pronto, lei mais correta não haverá. Ninguém é mesmo a favor do racismo, com a óbvia exceção dos racistas, que, todos também concordam, não devem poder manifestar nem propagar suas ideias. Portanto, por que discordar?

Bem, eu tampouco sou racista, mas pergunto, por exemplo, se entrevistar racista vai poder. Em princípio, dir-se-ia que não. Mas, se um determinado racista se torna um líder político importante, como já aconteceu no mundo todo e continua a acontecer, será possível combater suas ideias sem que elas sejam explicitadas de forma clara? Noticiar a realização, digamos, do comício de um partido tido como racista (ele próprio poderá negar isso, como frequentemente ocorre) é ajudar a divulgar ideias racistas? Publicar a notícia de um crime de racismo, mencionando, por exemplo, detalhes de insultos raciais proferidos, seria uma maneira de espalhar e perpetuar esses insultos? Que notícia sobre manifestações racistas não pode ser considerada, de uma forma ou de outra, disseminação de racismo?

Um trabalho antropológico que, na opinião de algum outro setor, seja de cunho racista (o que também sucede bastante e as divergências entre estudiosos são comuns) poderá ser publicado, ou ter suas conclusões noticiadas? Se não houver, entre os entrevistáveis disponíveis, alguém com a mesma qualificação para dar uma opinião contrária e, assim, "equilibrar" a matéria, ela não poderá sair? O jornal, no caso, deverá fazer um editorial condenando o estudo, para ser veiculado junto à matéria? Se bem me recordo, Darwin foi acusado de racismo e é até hoje tido por alguns como racista. Seria racismo publicar textos de Darwin que pudessem ser qualificados de racistas? Em certos casos, o racismo não estará na cabeça de quem lê e não na de quem escreve?

Fico imaginando quem é que vai elaborar os critérios para o cumprimento da lei. A própria comunidade científica, supostamente objetiva, não consegue unanimidade em torno do que pode ser considerado racismo, porque a própria palavra é plurívoca e sujeita a valoração subjetiva. Os critérios e sua aplicação dependeriam então das mil variáveis existentes no funcionamento de comissões, por mais representativas que se pretendam. E, na prática, o resultado seria que os jornais acabarão, por segurança, submetendo suas matérias à comissão competente. Isso, na opinião de quem defende a lei, não é censura, mas não sei que outro nome teria.

O controle sobre o racismo sugere que a mesma coisa se faça em outros campos onde igualmente há problemas, como o da intolerância religiosa. Se sair uma matéria sobre um santo cristão, deverá sair outra ao lado, lembrando que nem todos os cristãos creem em santos? Provavelmente. E assim chegará o dia em que, de tanto proibirem a divulgação do que é por alguém considerado nocivo ou impróprio, acabarão por proibir tudo e os jornais serão coisa do passado. Um pouco apocalíptico, mas quem sabe se não chegaremos a isso?

Terminei o café, fui despedir-me de Salvatore, aproveitando para contar-lhe a conclusão a que havia chegado. Surpreendentemente, ele disse que sabe há muito tempo que jornal vai acabar. E nem as revistas de mulher pelada sustentam mais uma banca, a concorrência ao vivo é cada vez mais invencível. Sim, eu ia ficar sem ter onde escrever e ele sem ter o que vender. Diante disto, talvez abra uma pizzaria. Comida é bom negócio e melhor será quando não houver mais jornais para estragar o apetite. Continuará tudo a mesma scugliambazzione, disse ele, mas ninguém vai saber.

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