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Roberto DaMatta
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Mr.Trump e os hispânicos

A minha certeza de que não há sociedade totalmente resolvida leva-me a compartilhar uma mensagem enviada por Richard, amigo e professor emérito de “ciências sociais” da Universidade da Nova Caledônia. Ei-la:

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2016 | 02h00

Caro DaMatta,

Tenho lido os vossos jornais e estou apreensivo com a crise brasileira. Uma embrulhada (trouble) que vocês se meteram e da qual só vocês podem sair. Em geral, as crises são sempre interpretadas como causadas por fatores externos ou são assim racionalizadas. Guerra, subversivos, mentirosos, traidores – todas essas coisas que não deixam ver os erros que cometemos contra nós mesmos.

Mas vocês, brasileiros, não têm mais essa fonte. Não há mais guerra fria como em 1964. Não há mais comunistas comendo criancinhas, nem fascismos atraentes. Também não há mais ditadores e a repressão deixou de ser norma. Hoje, o Brasil surge aos olhos de alguns dos meus vizinhos – reconheço que são velhos, ricos e mal informados – como um paraíso do “pode tudo” (anything goes), conforme afirmava a velha canção do velho Cole Porter.

Então, a confusão na qual vocês se meteram é vossa e não há ninguém – nem americanos, nem russos, nem cubanos ou marcianos – para tirá-los desse poço, senão vocês mesmos. Usem a elasticidade cultural do vosso conceito de “política” e teçam com ele uma teia democrática. Afinal, o “político” serve para ir para frente ou para trás. O governo FHC foi para frente, o lulopetismo deu marcha à ré. Mas, antes que você me acuse de estar me metendo em casa alheia, lembro que a possibilidade de articular – essa palavra-chave do vosso entendimento de fazer política – pode ser usada, positivamente.

Mas não era só disso que eu queria falar. Eu quero salientar que os Estados Unidos estão também passando por um momento crítico. Há uma crise no nosso sistema partidário, fundado num dualismo que muitos tomavam como modelar. Pensando em você, eu me lembro da velha tese levi-straussiana, segundo a qual todo dualismo esconde na sua simetria do cara ou coroa, democrata ou republicano, esquerda e direita, uma hierarquia. No fundo, as dualidades reprimem a divisão entre ricos e pobres, subordinados e superiores, poderosos e oprimidos. A América de hoje revela como os super-ricos se escondem por trás de um sistema de poder que tangencia um fosso de desigualdade. A crise está, como diz o velho, honesto e formidável Bernie Sanders, na desigualdade estrutural entre capital e trabalho escondida pela dualidade republicano-democrata. O burro e o elefante não são apenas para simbolizar como você e a Eleninha Soarez viram no livro Águias, Burros e Borboletas, mas para mistificar a real oposição entre os muito ricos e os pobres e miseráveis ligados aos grupos étnicos inferiorizados na democracia dos Estados Unidos.

E isso explica a popularidade do populismo neorracista do candidato Donald Trump. É com ele que o eventual candidato republicano traz de volta as piores fantasias de limpeza étnica da América pelo controle dos novos imigrantes. No caso, os chamados “hispânicos”, que são explicitamente insultados como “criminosos, estupradores e assassinos” por Donald. Não o Duck, mas o Trump é o que me horroriza.

Lembro-me de sua estupefação, quando você não foi classificado como “white” (branco), mas como “hispanic” (hispânico) naquela informação do seu departamento da Universidade Notre Dame. No Brasil, vocês que não se consideram democratas, mas perguntam: você se considera o quê? Aqui, na pátria dos livres e iguais, você é autoritariamente classificado! E se Donald Trump vencer a corrida e virar presidente?

Meus amigos dizem que estou sonhando. Mas eu me assusto com a arrogância desse discurso.

Vocês não estão sós. Aqui, como aí, só contamos com a nossa sensibilidade aliada à coragem e à honestidade, sobretudo, a intelectual.

Só a lucidez pode nos livrar de um mal maior. Termino reiterando algo que você, como antropólogo, já sabe. Que não há sociedade perfeita, sem paradoxos, retornos, saudades e problemas.

Take care and take cover,

Dick.

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