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Mozart e Uchida, uma conversa de gênios

O crítico-chefe do New York Times, Anthony Tommasini, convocou seus leitores para votar nos dez melhores compositores de todos os tempos. A enquete rolou durante todo o mês de janeiro. Na lista final, o primeiro lugar ficou, é claro, com Bach (na sequência, Beethoven, Mozart, Schubert, Debussy, Stravinski, Brahms, Verdi, Wagner e Bartók).

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2011 | 00h00

O interessante foi a justificativa de Tommasini para a escalação de Mozart e Beethoven. Depois de argumentar que Mozart é tão bom quanto Beethoven na música instrumental, mas foi genial também no domínio da ópera, ele opta por Beethoven, porque "suas obras são tão audaciosas e indestrutíveis que conseguem sobreviver até a interpretações medíocres".

É possível, porque nada é pior do que Mozart mal tocado. Obra alguma resiste a uma interpretação ruim, é verdade. Mas em Mozart o bicho pega: por não oferecer intransponíveis dificuldades técnicas, costuma ser território preferido dos medíocres. Em Mozart, é preciso combinar a leveza do toque com articulação precisa e uma expressividade sutil, mantendo-se longe da banalidade. O tempero fica por conta do obrigatório perfume do improviso. Afinal, Mozart chegou a estrear um de seus concertos só com a parte da orquestra escrita; como ele seria o solista, improvisou no ato.

Toda esta introdução coloca na exata perspectiva a milagrosa perfeição que a pianista Mitsuko Uchida, de 62 anos, pratica em tudo que faz - mas sobretudo em Mozart. Ela já gravou as 18 sonatas para piano, 4 sonatas para violino em 2005 com Mark Steinberg e os 27 concertos para piano com a Orquestra de Câmara Inglesa e Jeffrey Tate. Meticulosa, antes de tocar em público ou gravar, vai aos manuscritos, examina as edições, informa-se sobre as práticas de época, lê tudo sobre o compositor.

Pois agora, vinte anos depois de sua primeira integral dos concertos, ela os refaz. Só que desta vez atua como Mozart na Viena dos anos 1780: rege do piano uma versão reduzida da Orquestra de Cleveland. O primeiro CD, com os concertos 23 e 24, lançado em setembro de 2009, foi indicado ao Grammy deste ano. E neste início de fevereiro chega ao mercado internacional o CD Decca onde rege e sola os concertos 20 e 27 de Mozart. Faça um teste e ouça o Larghetto do 27. É o que basta para se convencer de que Uchida não tem concorrentes nestas obras hoje em dia. E olhem que há centenas de outros registros. Ela chega a improvisar ornamentos nas plácidas melodias, como fazia o próprio Mozart; e deve ter ensaiado muito com os músicos de Cleveland, que soam excepcionais.

O concerto 20, K. 466, é um dos únicos dois em tonalidade menor e tem sacadas como a do Allegro inicial: o piano toca um tema só seu, jamais repetido pela orquestra. Beethoven adorava este concerto: escreveu cadências para ele, que Uchida toca. Já o concerto 27, K. 595, foi o último que Mozart tocou em público, em março de 1791. Olha para o futuro, joga luzes sobre o terceiro concerto de Beethoven. Na altura dos 4"30 do Allegro do concerto 27, Uchida quase levita solando contra as delicadas cordas em pizzicati (pinçadas com os dedos). É puro Mozart. Melhor ainda: você se sente transportado para a Viena de 1780/90: Uchida nos passa a sensação de criar no instante estas obras-primas. Coisa de gênios (Wolfgang e Mitsuko).

MITSUKO UCHIDA

MOZART - CONCERTOS 20 E 27

DECCA CLASSICS - R$ 50

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