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Movimento que embala Arte com ciência

Desenquadrando Euclides, que encerrou mostra mineira, desafia a percepção do [br]público a partir da geometria

Helena Katz, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2011 | 00h00

A programação que encerrou no fim do mês passado o festival Verão Arte Contemporânea 5, em Belo Horizonte, apresentou Desenquadrando Euclides, obra de Adriana Banana com a companhia que criou em 1997, o Clube Ur=H0r (lê-se U de R igual H zero de R, e trata-se de uma fórmula matemática conhecida como Lei de Hubble, que representa a contínua expansão das galáxias). O nome já explicita a ligação entre arte e ciência que pauta o seu interesse na dança. Desenquadrando não decepciona quem atentou para isso. O trabalho inscreve-se naquilo que o filósofo Slavoj Zizek, na introdução de seu novo livro, Em Defesa das Causas Perdidas chama de "pensamento fraco", e explica ser o pensamento "oposto a todo fundamentalismo, um pensamento atento à textura rozimática da realidade".

Podemos começar por aí para situar a nova produção de Adriana, pois ela se inscreve na linhagem oposta à das teorias que explicam tudo do mundo (os "pensamentos fortes"), pois justamente interroga uma delas, a geometria euclidiana. Essa geometria serve como exemplo de "pensamento forte", pois resultou da reunião de toda a geometria conhecida até a sua época, que Euclides (360 a.C./295 a.C.) compactou nos 13 volumes de Elementos. A prova da sua "força" está na sua duração, pois foi considerada "a" geometria até o século 20, quando começaram a surgir outras geometrias. E mesmo essas, continuaram agrupadas em torno da sua referência, pois são conhecidas como geometrias não euclidianas.

Explicando planos e objetos de três dimensões, formulou também o nosso modo de olhar. Por conta da sua eficiência e abrangência, obriga Desenquadrando Euclides a enfrentar um obstáculo duro: a nossa percepção por demais viciada, que nos dificulta reconhecer o desenquadramento em curso nessa obra.

Para fazer o que o título promete, Desenquadrando Euclides precisa "desenquadrar" a nossa percepção para nos habilitar a identificar que o espaço, de fato, não está dado; que o espaço é aquilo que aparece em sintonia com o tipo de movimento que está sendo feito; que o espaço está em codependência com o que acontece.

Adriana Banana, Tuca Pinheiro, Lívia Rangel, Karina Collaço e Raul Correa compartilham conosco movimentos novos, nascidos da pesquisa que os guiou na construção desse espaço outro. E o nosso olhar leva um tempo até descobrir o que está acontecendo e perceber o que sucede de diferente nos corpos e entornos. Caminham com os cadarços do tênis amarrado (Tuca), caminham com seu tênis amarrado ao de outra pessoa (Tuca com Karina); dançam com diferentes modelos de sapatos-tijolo, ou com uma cadeira amarrada ao corpo (Raul), ou com facas no lugar das mãos (Livia); seguram martelos (Karina); colam uma xícara ou um bule ao tronco (Lívia e Karina); transformam o feltro do cenário em corpo, sapato, espaço; pés virando chão, grudados nele com fita preta; um corpo constrói ligação com o outro por um cordão umbilical (Tuca e Raul). Pena que McLuhan não tenha visto, para comprovar que o que chamou de "extensões do corpo" se transformam em corpo, um corpo que se distende a ponto de modificar sua relação com o espaço, tempo e movimento, transformando-se porque o entorno e suas relações se transformam.

Cada uma dessas situações propõe um outro jeito de lidar com o peso e o equilíbrio e vai produzindo sutis e estranhíssimos movimentos. Nesse jogo tonalizado pela elegância, o espaço vai se dobrando e se esgarçando, e se encolhendo e se curvando. A riqueza e o frescor do material produzido alimenta a esperança de uma continuidade necessária para o desenvolvimento desse projeto.

Soluções. Dentre as várias soluções surpreendentes que cada um dos cinco intérpretes apresenta, vale destacar o que ocorre no duo entre Tuca Pinheiro e Karina Collaço. Eles reinventam a forma de um corpo lidar com o outro, propondo um contexto novo para o que se explora, na área da dança, debaixo da nomeação de "contact improvisation" (improvisação por contato). Vai ficando visível que o operador é o movimento, e não o braço que encosta no outro corpo e o manipula, pois o que surge é a coimplicação de um corpo no do outro, borrando um pouco o papel do condutor da ação.

A beleza do caminho que aí se abre se torna somente um dentre outros presentes perceptivos de Desenquadrando Euclides. Afinal, não é sempre que um espetáculo de dança se transforma, para sua plateia, em um experimento (no sentido pleno do termo), desses que mexem de forma inquietante com o corpo de quem assiste. Nesse caso, trata-se de um potente experimento mcluhaniano, que dá forma a um necessário "pensamento fraco" para lidar com a hegemonia vigente na dança euclidiana.

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