Motoboys de São Paulo impressionam autor de <i>V de Vingança</i>

Motoboys "trançando" entre filas de carros, o surpreendente verde brotando do cinza e a Cratera da Colônia são as imagens paulistanas que mais impressionaram o desenhista britânico David Llyod. "Aqueles caras que trançam no meio do trânsito, arriscam suas vidas. Esse tipo de personagem é muito interessante." "E é muito específico de São Paulo", disse à BBC Brasil nesta sexta-feira. Co-autor da graphic novel V de Vingança, Lloyd passou 15 dias conhecendo diversas facetas de São Paulo para fazer as ilustrações do volume da série Cidades Ilustradas dedicado à metrópole.CrateraAlém de cartões postais como o Mercado Municipal e as ruas com decoração japonesa na Liberdade, Lloyd passou por locais em que a maioria dos paulistanos nunca põe os pés, como a Favela de Paraisópolis, na zona Norte, e a Cratera da Colônia, em Vargem Grande, no extremo sul do município."Achei (São Paulo) verde e cinza. A cidade tem o cinza, que toda cidade do mundo tem, mas vocês têm muito verde aqui." "Aparentemente vocês querem muito mais verde do que existe agora. Mas, vou te dizer: vocês têm mais verde do que em Londres e outras cidades onde estive como Nova York. É como a natureza brotando dentro da cidade", comparou.Mas se conseguiu notar o verde paulistano, Lloyd também achou a cidade mais cinza do que outras metrópoles. "O cinzento não é apenas por ser a cor natural de qualquer cidade. É também pelo fato das cores mais populares nos carros de São Paulo serem o branco, o cinza e o preto. E as pessoas não notam e isso forma a paisagem da cidade."Cratera Lloyd afirma que não escolheu um lugar favorito na cidade, mas ficou impressionado com a Cratera da Colônia (área na zona sul de São Paulo, uma cratera formada pela queda de um meteorito e que abriga um loteamento)."É um lugar fascinante (?), achei impressionante mas, claro, vi outros lugares impressionantes em São Paulo. Fomos a alguns lugares onde dava para ver toda a cidade aos nossos pés. É uma cidade muito, muito grande".Para o desenhista, um de seus desafios ao retratar a cidade será abordar o abismo entre ricos e pobres, sem cair em clichês."Esse é um elemento comum em várias cidades, mas acho que existe uma forma de fazer isso, que não transforme em clichê. Infelizmente, clichês acabam sendo verdade. Mas me importo mesmo é em retratar o quadro real. Não me interesso em fazer declarações políticas apenas para fazer a declaração política", disse.Tudo igual V de Vingança foi criada por Lloyd junto com o roteirista Alan Moore na década de 80, retratando um imaginário regime ditatorial na Grã-Bretanha em 1997. Quando questionado se faria algo diferente com a história se V de Vingança tivesse sido criada nos dias atuais, a resposta de Lloyd foi categórica: "Infelizmente, não.""Quando criamos V de Vingança o modelo original foi a Alemanha da década de 30. E aquele modelo, infelizmente, parece ter ressuscitado. O que aconteceu lá é que pessoas comuns votaram em um ´cara durão´, sabendo das coisas terríveis que aquela pessoa faria. Mas toleraram isso, pois precisavam se libertar daquela situação, de desemprego, dificuldades"."Quanto mais você dá às pessoas, mais elas tendem a votar em você e serem corrompidas. Por isso governos conservadores e de direita continuam", afirma."Se tivéssemos criado V de Vingança hoje, teríamos feito exatamente a mesma coisa. Pois é baseado no mesmo quadro de corrupção que ainda existe. Nós ainda não aprendemos."Segundo Lloyd, o livro desenhado por ele sobre São Paulo deverá ser lançado em novembro ou dezembro de 2007.

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