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Mostras lembram a história do Rio de Janeiro em fotos, postais e pinturas

Cidade maravilhosa completa 450 anos em 2015

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

24 Março 2015 | 03h00

RIO  - “Eu estou convencido de que se poderia bem viajar meses inteiros pela cidade do Rio, achando-se todos os dias alimento agradável para o espírito e o coração”, escreveu Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882) em suas crônicas no Jornal do Commercio, que viriam a ser editadas em 1862 no livro Um Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro. As paisagens evocadas pelo autor de A Moreninha, essencialmente o centro e arredores, inspiraram tanto artistas quanto fotógrafos, que criaram imagens seminais da iconografia carioca. Na esteira dos 450 anos de fundação da cidade, quatro exposições de fôlego e complementares, em cartaz em diferentes centros culturais, enfocam essa produção e propõem reflexões sobre o papel desses retratos do Rio na construção do imaginário coletivo. 

No Instituto Moreira Salles, estão 50 aquarelas e gravuras pinçadas de seu acervo para ilustrar as crônicas do escritor flâneur. Para além do Passeio Público, da Praça 15, Rua do Ouvidor e das panorâmicas do morro de Santo Antônio, retratados por artistas europeus de passagem pelo Rio, aparecem tipos comuns à época: o estudante da Escola Militar, com uniforme paramentado, a quitandeira, os vendedores de água e doces, os carregadores de café - habitantes de uma cidade de 200 mil habitantes, capital do império, em fase de crescimento e de desenvolvimento do processo civilizatório, mas ainda rural. 

O Rio de Janeiro de Debret, no Centro Cultural Correios, tem o mesmo recorte. A diferença são as dimensões da mostra e a grife: 120 obras do pintor e desenhista, o principal artista entre os que vieram de Paris ao Rio em 1816. Debret ficaria 15 anos e, como pintor oficial da corte, retratou os mais importantes fatos históricos do período: a independência, as aclamações de d. João VI, d. Pedro I e d. Pedro II, as viagens da família imperial.

Os costumes, as procissões fúnebres e missas, os castigos aos escravos rebeldes em praça pública, o transporte dos ricos em cadeirinhas carregadas pelos serviçais, os meninos brincando de soldados, o lado prosaico da vida carioca também o ocupou. Pela abrangência do repertório - documentado, na volta à França, no compêndio Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil -, Debret entrou para a história como o pintor estrangeiro que melhor descreveu o Brasil na primeira metade do século 19, a capital em especial. 

A partir de 1850, notadamente na virada para os anos 1900, a fotografia iria dominar a produção de imagens, como se aprende em Rio: Primeiras Poses - Visões da Cidade, com a chegada da fotografia (1840-1930), mostra também organizada pelo Moreira Salles. Com a nova técnica, a paisagem, entre mar e montanha, se consolidaria como marca decisiva da representação do Rio. 

Os primeiros profissionais dessa leva foram os franceses Augusto Stahl, Victor Frond e Revert Henry Klumb e o suíço Georges Leuzinger, cujos trabalhos de maior relevância estão sendo exibidos. Os brasileiros Marc Ferrez e Augusto Malta mereceram mais destaque, por terem documentado as profundas transformações urbanísticas da cidade e a expansão rumo à zona sul. 

Único com câmera capaz de fazer panorâmicas de grande formato, Ferrez, estabelecido em 1867, tornou-se o profissional mais conhecido da fotografia de paisagem e urbana no Rio, sendo autor do monumental Álbum da Avenida Central, em que registrou a construção da via de ligação entre o porto e a zona sul.

Malta, nas primeiras décadas do século 20, teve papel fundamental por ser o fotógrafo oficial da Diretoria-geral de Obras e Viação da Prefeitura do Distrito Federal e da companhia de eletricidade, a Light. Ele se dedicou principalmente às obras de modernização do Rio, que deixava o passado colonial e se europeizava, com a ambição de se tornar a Paris tropical.

De grande qualidade técnica e estética, as fotos vão das praias de Copacabana, Leme e Ipanema ainda virgens, antes de aterros e edificações, ao centro com prédios originais, afrancesados, com ruas apinhadas de homens de terno e chapéu, e o carnaval. Os signos da modernidade carioca estão todos ali. As ampliações fazem com que o visitante se sinta parte das cenas registradas.

Coordenador de fotografia do IMS e curador da exposição, Sergio Burgi traça a diferença entre as imagens, de uma era anterior ao fotojornalismo, e as surgidas ao longo do século 20. “Não são imagens edulcoradas da cidade, e sim a junção de elementos definidores dessa cidade, cujas contradições viriam a se agravar”, pontua. 

“Também não é um olhar da fotografia humanista do pós-guerra. Esses fotógrafos foram responsáveis pela construção de uma representação que é reforçada até hoje. Ferrez, por exemplo, construiu uma visão quase onírica do Rio. A percepção que se tem da cidade vem dali.”

Imagens como a do morro da Providência, no centro, a primeira favela, povoada por soldados egressos da Guerra de Canudos desde 1897, aparecem esporadicamente nessa iconografia. Isso porque o olhar dos fotógrafos era atraído para a cidade que se refazia para o futuro, os novos bairros, “a vitrine da modernidade”, explica Cícero Almeida, diretor do Centro Cultural da Justiça Federal, que exibe A Cidade Idealizada - O Rio de Janeiro Através dos Cartões-postais (1900-1930). Alguns deles são de Ferrez. 

“O cartão-postal ilumina o lugar retratado, não se faz cartão-postal para enfear”, diz Almeida, que reuniu cerca de 150 exemplares de coleção particular. Segundo ele, o período abarcado representou a “época de ouro” dos postais no Brasil, quando as comunicações eram difíceis. O Rio como destino turístico era “vendido” com eles para o País e o mundo.

O visitante conhece o morro do Corcovado sem o Cristo, as praias com jangadas de pescadores, o primeiro bondinho do Pão de Açúcar, o porto com galpões novinhos, edifícios que não existem mais, como o Palácio Monroe e o Hotel Avenida. Os cartões chegaram ao Brasil em 1880 e se popularizaram rapidamente. “As imagens dessa cidade idealizada não são do Rio colonial, não têm aspectos sociais marcantes. É quase uma cidade europeia. Há uma coincidência entre a disseminação dos postais e a vontade do governo de divulgar a cidade com as caraterísticas que ela teria no futuro”, acrescenta Almeida.

Artista faz obra de observação crítica dos contrastes

Para além da beleza indelével, a poética de Marcos Chaves se nutre mais de uma observação crítica dos contrastes do Rio. Em Paisagens Não Vistas, no Museu de Arte do Rio, o artista, nascido no Rio, exibe recorte de 20 anos de sua produção, de fotografias, vídeos e objetos. 

A vista do Pão de Açúcar é escondida por ônibus parados; do alto da favela, atrás de barras de ferro, o ponto turístico se revela.

De 1997, a instalação Eu Só Vendo a Vista, segundo Chaves, resume sua reflexão sobre os clichês aplicados ao Rio: a visão frontal do Pão de Açúcar em dia esplendoroso de sol é objeto de consumo, mas a cidade não está à venda. “O Rio tem uma paisagem urbana única, pela sua geografia, favelas de frente para o mar, e confrontos visuais diretos entre as classes ricas e pobres.” “Mais do que a paisagem vendida para o turismo, esses contrastes é que me interessam. É na rua que acontece minha reflexão sobre a cidade, o mundo, a humanidade.”

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