Rodrigo Lopes/Divulgação
Rodrigo Lopes/Divulgação

Mostras de peso destacam importância das artes brasileira e latina

Abertura este mês de quatro grandes exposições destaca a importância de artistas

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2011 | 00h00

Por mais que se questione o modelo das Bienais de Arte, são essas mostras exatamente que marcam o calendário cultural para os interessados na produção artística contemporânea. Os eventos se espalham pelo mundo, são centenas - alguns com mais alcance, outros com menos -, mas setembro torna-se agora um mês privilegiado em se tratando desse tipo de mostra.

Quatro exposições de peso serão inauguradas, em sequência, em apenas duas semanas. Mais do que isso, há a oportunidade de colocarem em grande destaque a arte brasileira e a latino-americana, não apenas no Brasil, como no exterior.

A rodada começa na sexta-feira, quando ocorre a cerimônia oficial de abertura da 8ª Bienal do Mercosul, em Porto Alegre. Logo em seguida, no dia 15, é inaugurada a 11ª Biennale de Lyon, na França, que tem entre seus participantes a presença de obras de criadores brasileiros como Arthur Bispo do Rosário, Lucia Koch, Jarbas Lopes e Lenora de Barros. Depois, no dia 17, abrem-se para o público a 12ª Bienal de Istambul, na Turquia, desta vez, com curadoria-geral do brasileiro Adriano Pedrosa; e a 6ªVentoSul - Bienal Internacional de Arte Contemporânea de Curitiba, no Paraná. Cada uma das mostras tem perfil, projeto e tema específicos e o Estado detalha, nesta página, um pouco dessas exposições.

Se a Bienal de Veneza, a mais tradicional de todas, chegou ao impasse de se tornar "conservadora" e "eurocêntrica", como dizem muitos de seus críticos, as grandes mostras têm enfrentado o desafio de firmarem sua relevância com projetos curatoriais mais ousados ou autorais. A mesma Bienal de Veneza, neste ano, em sua 54.ª edição, não teve nenhum artista brasileiro em sua mostra principal - o que foi uma surpresa para muitos -, mas as Bienais que se iniciam agora cobrem essa lacuna.

TERRITÓRIO E POÉTICA NA MERCOSUL

"Sempre achei esquisito que uma Bienal tivesse no nome um tratado econômico que nunca deu certo", diz o colombiano José Roca, que assina a curadoria-geral da 8.ª Bienal do Mercosul, sob o título Ensaios de Geopoética. Nada mais natural que uma temática estratégica sobre a questão de território e nacionalidade fosse tomada como mote para reunir obras de 105 artistas de 31 países na mostra que vai ser aberta na sexta-feira, em Porto Alegre, para convidados - o público terá acesso no sábado e a mostra fica em cartaz até 15 de novembro.

A Bienal, que homenageia o chileno Eugenio Dittborn, ocupará os armazéns do Cais do Porto, o Santander Cultural, o Museu de Artes do Rio Grande do Sul e locais que receberam obras específicas. Mais ainda, a edição, que tem como curadores Alexia Tala, Cauê Alves, Paola Santoscoy, Aracy Amaral, Fernanda Albuquerque e Pablo Helguera, firma-se como mostra de processo. Os segmentos Cadernos de Viagem e Além Fronteiras reúnem obras criadas a partir de viagens pelo RS. Além disso, mostras dos participantes ocorreram em outras cidades gaúchas.

EM LYON, A 'BELEZA TERRÍVEL'

A argentina Victoria Noorthoorn assinou, em 2009, a curadoria da 7.ª Bienal do Mercosul, mas a edição não foi muito bem aceita pela crítica. "Foi uma mostra importante, não compreendida no momento", diz José Roca, à frente da atual 8.ª edição. Agora, Victoria vai apresentar seu mais novo projeto, a curadoria da 11.ª Biennale de Lyon, na França, sob o título A Terrible Beauty Is Born.

"Nasce uma beleza terrível", diz o verso do poema Easter, do irlandês Yeats, escrito em 1916 como "gesto de emancipação" nas lutas entre Irlanda e Inglaterra. Victoria afirma que a partir desse mote fez uma proposta curiosa aos 78 artistas que participam da Bienal de Lyon (entre 15 de setembro e 31 de dezembro): que "fossem radicais" no questionamento "do presente e da realidade". Por sua proximidade com o Brasil, ela selecionou time de peso de criadores brasileiros, como Arthur Bispo do Rosário, Cildo Meireles, Lenora de Barros, Augusto de Campos, Lucia Koch, Jarbas Lopes, Laura Lima e Erika Verzutti.

 

POLÍTICA E ARTE EM ISTAMBUL

"A relação entre arte e política tem sido um foco da Bienal de Istambul pelo menos desde a 9.ª edição, curada por Dan Cameron, em 2003, sob o título de Poetic Justice", diz Adriano Pedrosa, que, ao lado do costa-riquenho Jens Hoffmann, assina a curadoria de Sem Título (12.ª Bienal de Istambul). A mostra, em cartaz na cidade turca entre 17 de setembro e 13 de novembro, tem como "inspiração" a obra do cubano-americano Félix González-Torres (1957- 1996). Ele não está presente com trabalhos, mas como "exemplo notável de artista que articula de forma profunda e complexa conteúdos políticos, pessoais e corporais com preocupações formais, estéticas e visuais", afirma Pedrosa. "A Bienal está ancorada em cinco exposições coletivas, todas tomando trabalhos específicos de Félix como ponto de partida: Untitled (Abstraction), Untitled (Passport), Untitled (History), Untitled (Death by Gun) e Untitled (Ross)." Não foi anunciada a lista de participantes, mas as artes latino-americana - do Brasil, sabe-se de exibição da série Marcados, de Claudia Andujar e de sala especial de Leonilson - e do Oriente Médio são forte presença.

VENTOSUL E OS SENTIDOS DA CRISE

"Os eixos tradicionais deixaram de ser hegemônicos na medida em que outras cidades com ambição cultural, entre elas, Curitiba e Porto Alegre, decidiram investir em arte. O mesmo fenômeno de descentralização se observa na Ásia e nos Emirados Árabe", afirma o alemão Alfons Hug, curador, com o paraguaio Ticio Escobar, da 6.ª VentoSul. A mostra em Curitiba, com abertura no dia 17 e até 20 de novembro, traz obras de 70 artistas nacionais e estrangeiros. O conceito da edição se faz sob o tema Além da Crise.

Não se trata, diz Hug - que já foi curador de duas Bienais de São Paulo -, de "uma crise da arte, nem dos suportes", mas o conceito se refere à reflexão sobre um "momento crucial que, diante de uma mudança brusca de paradigma, exige decisões, posições e imagens novas". A fotografia, como do ucraniano Boris Mikhailov e da alemã Ricarda Roggan, e a pintura, como de Marina Rheingantz e Eduardo Berliner, são destaques. Vale dizer que a participação de criadores do Paraná foi realizada com a ajuda de Artur Freitas, Eliane Prolik e Simone Landal.

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