Mostras contrapõem arte de Otto Dix e Lasar Segall

A arte de Otto Dix, uma das obras-primas da produção gráfica do último século, será exibidaa partir desta sexta em dois museus paulistanos, queaproveitaram a ocasião para contrapor as terríveis e realistascenas de guerra retratadas pelo artista alemão à angustiadavisão de Lasar Segall sobre os mesmos temas. Os dois são damesma geração, foram amigos e companheiros de jornada,traduzindo em imagens a efervescência e o drama de sua época.As mostras que serão exibidas no Museu Lasar Segall e na Faaptêm eixos distintos. Ambas partem das obras disponibilizadaspela exposição itinerante realizada por um instituto público deSttutgart para divulgar a obra do artista alemão no exterior. Nomuseu dedicado a Segall estão obras suas em diálogo direto com35 trabalhos avulsos de Dix. Aos retratos de prostitutas de Dixcontrapõem-se as mulheres da série do Mangue, de Segall, porexemplo. O fato de parte importante do acervo de Segall estar emexposição no México acabou favorecendo essa mostra, queconseguiu assim ocupar um espaço privilegiado do museu.No caso do museu da Faap há um corte temático mais claro. Láestarão expostos os trabalhos feitos pelos dois artistas acercado tema da guerra. De Dix poderão ser vistas as 50 gravuras quecompõem a série A Guerra, feitas pelo artista em 1924 apartir de sua experiência no front durante a 1.ª Guerra Mundial."Durante anos a fio, no mínimo durante dez anos, eu sempre tiveesses sonhos, nos quais me via obrigado a engatinhar por casasem ruínas", dizia ele.Apesar de afirmar que não via a artecomo algo que pudesse mudar o mundo, ele conseguiu traduzir essehorror em imagens tão intensas que tiram o ar de quem as vê.Pessoas comendo ao lado de defuntos, soldados que se protegemusando os corpos de seus companheiros, esqueletos abandonadosainda com o rifle nas mãos... Tudo isso retratado com umpreciosismo técnico impressionante, que chegou a ser comparadoaos Desastres de Guerra, de Goya. Como resume o autor docatálogo alemão, Eugen Keuerleber, "ele agarra o objeto pelopescoço, diz o que não é belo com palavras que não são belas:não faz a menor concessão ao que costumeiramente entendemos porarte".A obra de Segall não tem essa acidez, essa dureza impiedosa. Éverdade que as 74 gravuras aquareladas que compõem o cadernoVisões de Guerra foram feitas a distância, mas trazem avisão angustiada do artista judeu que acompanha a partir doBrasil a destruição e a perseguição do período da 2.ª GuerraMundial. A imagem da mulher que olha horrorizada o que estáacontecendo - com a imagem das pessoas acuadas refletidas emseus olhos - é profundamente tocante. Mas há uma diferença defundo entre a forma como Dix e Segall se colocam. Enquanto oprimeiro retrata a morte vista de muito perto e de formadesesperançada, Segall dá uma ênfase mais humana ao seu relato.Enquanto Dix parece desenhar suas imagens à navalha, a linha deSegall corre mais redonda e harmônica.Esse cotejamento entre os artistas permite uma enriquecedoracomparação formal e temática entre dois artistas que conseguemser ao mesmo tempo tão próximos e tão distantes. A proximidadedeles se dá pela necessidade de usar a arte para expressar seusentimento sobre um entorno que os oprime, que os exaspera dealguma maneira. Como explica a pesquisadora do Museu LasarSegall, Vera d´Horta, "a arte é revolucionária por isso. Elesdescobrem um jeito atual de mostrar aquilo que estavaacontecendo, criam uma nova linguagem pelo vigor e pelaviolência daquilo que estavam vivendo".Pracinha - É importante lembrar que o museu da Faap também abriuespaço para mostrar o depoimento visual de um terceiro artistasobre o horror da guerra, ao exibir as gravuras feitas porCarlos Scliar a partir de suas observações como pracinhabrasileiro no conflito mundial, que pertencem a esse acervo.Essa inclusão permite também notar o peso da influência de ummestre como Segall - que escolheu o Brasil para viver exatamentepara fugir das tensões enfrentadas na Europa e que desembocaramno nazismo - sobre os artistas das gerações posteriores.Otto Dix e Lasar Segall. De 3.ª a sáb., das 14 às 19 h; dom.,das 14 às 18 horas. Museu Lasar Segall. Rua Berta, 111. Tel.:(11) 5574-7322. Até 7/7. Abertura às 14 h.Carlos Scliar, Otto Dix e Lasar Segall. De 3.ª a 6.ª, das 10 às21 h; sáb., dom. e feriado, das 10 às 18 h. MAB/Faap. R. Alagoas 903, tel. (11) 3662-1662/R. 1123. Até 7/7. Abertura às 17 hpara convidados.

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