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Luis Fernando Verissimo
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Vivíamos na busca incessante da mulher nua. Tinha mulheres nuas em filmes franceses proibidos até 18 anos, mas – danação! – nós não tínhamos 18 anos. E os porteiros de cinema, a categoria humana mais desumana que existe, não caíam na nossa conversa.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2015 | 02h00

– Eu juro que tenho 18 anos.

– Mostra a identidade.

– Esqueci em casa.

– Vai buscar.

Propina não adiantava. E, mesmo, quem tinha dinheiro para subornar porteiros? Os abençoados pela Natureza (que tinham 18 anos) nos contavam como eram os filmes que não podíamos ver. Só para aumentar nosso sofrimento.

– Aparece mulher nua?

– Nuinhas.

– Se vê tudo?

– Bom, tudo não.

Mesmo nos filmes franceses não aparecia tudo. Apareciam seios e bundas, geralmente da Martine Carol. Tudo não. Tudo aparecia nas revistas de nudismo feitas na Alemanha (ou na Holanda, sei lá), que trocávamos entre nós. Mas, nas revistas de nudismo, mulher bonita mostrando tudo era raro, o que mais se via eram famílias inteiras peladas. E quem se interessava em ver mulheres feias e famílias como as nossas, só mais brancas, nuinhas?

A própria Playboy, lançada nos Estados Unidos em 1953, custou a mostrar tudo. Só anos depois do famoso primeiro número, com a foto da Marilyn Monroe, começaram a aparecer os pelos pubianos. Mais tarde, numa progressão natural, veio tudo mesmo. Li que a edição brasileira da Playboy vai deixar de ser publicada, pelo menos por enquanto. A disponibilidade atual de sexo e nudez nas redes, para todas as idades, talvez tenha tornado a pelada impressa obsoleta, ou no mínimo supérflua. Mas a notícia mais intrigante vem dos Estados Unidos, onde anunciaram que a Playboy deles continua, mas vai alterar sua política editorial e dar menos ênfase a mulher nua e mais aos textos, seguindo uma preferência dos leitores. O que traz para a realidade uma brincadeira que se fazia aqui.

– Compras a Playboy?

– Compro, mas só pelos artigos.

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