Mostra trata da reinvenção da pintura brasileira

Quando o russo Kasimir Malevich(1878-1935) criou a série suprematista "Branco sobre Branco",entre 1917 e 1918, ele sinceramente pensou que a pintura seesgotaria, como diz o curador Paulo Herkenhoff. "Rompi abarreira azul das fronteiras da cor e desemboquei no branco.Atrás de mim meus colegas pilotos nadam na brancura", declarou oartista, porque delinear quadrados brancos sobre um fundo brancofoi um ato que criou um impasse na pintura - depois disso, o quemais poderia ser feito? "A pintura teve de se reinventar", dizainda Herkenhoff e, claro, ela não morreu, assim como há tempos,desde o surgimento da fotografia, sua morte vem sendo especulada Mas a pintura se reinventou, se reinventa, num processonatural e gradual. Foi ela a escolhida para ser a estrela únicada mostra "Pincelada", que será inaugurada amanhã no InstitutoTomie Ohtake, com curadoria de Herkenhoff "Pincelada" ocupa as três grandes salas do InstitutoTomie Ohtake. Reúne mais de uma centena de obras para tratar apintura realizada no Brasil de uma forma ampla. Sim, a pintura,esse meio tão caro a Herkenhoff, como ele mesmo diz, é um meiocomplexo, mas o público leigo, garante o curador, terádisponível textos muito didáticos nos espaços expositivos.Na primeira sala dão boas-vindas aos visitantes obras emque os artistas adentraram o campo da abstração - mas não ocampo da abstração geométrica, concretista. "São artistas quefazem a passagem gradual para o abstrato", diz o curador, ou quequando voltam para a figuração, fazem uma "figuraçãoFantasmagórica". No centro da sala, dialogam pinturas de IberêCamargo, Ivan Serpa e uma obra de Alberto da Veiga Guignard (amostra é pontuada pela participação de quatro modernistas queestiveram para além do chamado "regionalismo" do movimentomoderno - além de Guignard, Flávio de Carvalho, Cícero Dias eLasar Segall). Em cada uma das salas o curador faz espécies de "salasespeciais" de alguns artistas-chave. Na primeira, o escolhido éIberê, representado por um conjunto de oito telas da década de1960, do período de sua "potência, quando atinge a maturidade",diz Herkenhoff. "É o Iberê material, gestual, que frente afrente com a tela quer pintar, descarnar um ser vivo." Ao ladode Iberê estão duas grandes telas da Fase Negra de Serpa, de1964 - desde a década de 1960, elas não eram exibidas. Na segunda sala estão os concretistas, da abstraçãogeométrica realizada pelos integrantes do paulista Grupo Ruptura(da objetividade absoluta) e do carioca Grupo Frente, cujosintegrantes caminharam para o chamado neoconcretismo, que"reivindica a participação do sujeito". Um objeto ativo deWillys de Castro faz o espectador se movimentar para ver todasas suas faces; ao mesmo tempo, da pintura para a criação dosBolides, Hélio Oiticica incita que o visitante "olhe com todosos sentidos" - pode manusear a obra. Na terceira sala, por fim, está a "geometria semmanifesto" presente na obra de artistas que "renovam a tradiçãoclássica da pintura". Maria Leontina faz paisagens geométricas;Rubem Valentim "converte a herança africana numa escritasimbólica abstrata"; Milton Dacosta cria naturezas-mortas apenascom linhas ou castelos com o empilhamento de pequenos quadrados.Pincelada - Pintura e Método, Projeções da Década de50. Instituto Tomie Ohtake. Av. Faria Lima, 201, 2245-1900. 3.ªa dom., 11 h às 20 h. Até 24/9. Abertura quarta, às 20h, paraconvidados

Agencia Estado,

08 de agosto de 2006 | 18h40

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