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Mostra sobre Zuzu Angel abre até as duas da manhã de sábado para domingo

'Ocupação' no Instituto Itaú cultural já recebeu mais de 40 mil pessoas

Flavia Guerra , O Estado de S. Paulo

09 de maio de 2014 | 10h00

A mostra Ocupação Zuzu, atualmente em cartaz no Instituto Itaú Cultural, termina no próximo domingo, Dia das Mães. Mas para os visitantes de última hora, a exposição fica aberta até às duas da manhã de sábado para domingo. Durante todo o fim de semana, haverá uma programação especial dedicada à estilista.

A mostra já foi vista por cerca de 40 mil pessoas, com uma média de mais de mil  visitações por dia, utilizando como base o período que vai desde sua abertura em 1º de abril até 7 de maio, com fechamento ao público às segundas-feiras.

Na madrugada de sábado para domingo, durante as seis horas a mais de funcionamento, o visitante poderá assistir à série audiovisual CrônicasNÃOditas, que ocorre à meia-noite, na Sala Itaú Cultural.  Realizada pelo Itaú Cultural, com concepção e produção Manifesto Impromptu e Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, a série, com cinco capítulos de cerca de oito minutos, é baseada em momentos característicos do período da ditadura. Cada episódio funciona como um poema de ações dramáticas, em pequenas histórias que se encerram em si mesmas, sempre conduzidas por um narrador que se apresenta sob diversas máscaras.

Ainda nas seis horas extras, o público também pode conferir a performance da estilista e consultora Karlla Girotto, com atrizes que vestem réplicas de criações de Zuzu Angel e leêm trechos dos textos e cartas escritas pela estilista. Apresentada durante o todo período da exposição, a performance é realizada pela última vez no domingo, das 14h às 20h.

Sábado, às 14h, crianças a partir de seis anos podem participar da Oficina de Bordado, na qual são estimuladas a desenvolver e colocar em prática um projeto de costura, com a ajuda dos educadores. Às 17horas, a estilista Gisele Dias, participa do último encontro do público com estilistas, com mediação da pesquisadora, professora, consultora e jornalista de moda Cristiane Mesquita.

 

Quem quiser fazer uma visita acompanhada por um educador, os horários do sábado são às 11h, 14h, 16h, 18h e, excepcionalmente, 20h e 22h, além de à 1h do domingo, que segue com visita às 11h, 14h, 16h e 18h.

 

Estilista e ativista

Primeira dedicada a um ícone da moda, a Ocupação é uma espécie de exposição que se move e reúne mostra, performances, ciclo de cinema e encontros com especialistas. Para a Ocupação Zuzu Angel, houve encontros com estilistas como Ronaldo Fraga, entre outras atividades, como performance. Ao todo, em mais de 400 peças, o público ainda pode percorrer os caminhos que transformaram a mineira de Curvelo em uma das maiores estilistas, e ativistas, que o Brasil já teve.

 

Em plena Ditadura Militar no Brasil, tempos em que a moda era considerada 'arte de butique', Zuzu realizou um dos primeiros desfile-protesto da história, ousou pensar sua moda como produto para o grande público e pensava em identidade de marca muito antes de as roupas começarem a receber etiquetas. Ela, aliás, foi a primeira a costurar etiquetas de sua marca em uma das tantas peças icônicas que criou tanto para mulheres da alta sociedade quanto para os jovens que adoravam suas camisetas estampadas com o anjo, sua marca registrada.

 

"Foi revolucionária, pensou o prêt-à-porter como poucos, costurou para a mulher que trabalhava, colocou as filhas para trabalhar com ela, criou os filhos praticamente sozinha, pois o ex-marido voltou para os EUA depois da separação", explica Valdy Lopes Jn, que assina a direção de arte da mostra e dividiu a curadoria da exposição com Ferreira, além da jornalista Hildegard Angel e de Valéria Toloi, gerente do Núcleo de Educação do Itaú Cultural.

 

Na Ocupação, cerca de 40 looks da estilistas estão expostos. Há quatro vestidos de noiva, nove trajes que ela usava como símbolo do luto pela perda do filho, três vestidos que as modelos americanas usaram no desfile de Nova York e dois exemplares da série pastoral. Há também mais de 30 itens como camisetas, bolsas, porta-óculos, fivelas. Em cada um, o singelo anjo faz contraponto com a violência que tomava conta de sua vida. Tal violência que estampa uma das peças mais interessantes da exposição.

 

Em um vestido longo de algodão, formas amplas e mangas volumosas, ao lado do anjo, de delicadas flores, árvores, casinhas bucólicas, sol e passarinhos, estão estampados soldados, tanques de guerra, quepes militares e canhões. "É incrível o trabalho dela, de bordar símbolos militares com uma delicadeza incrível. Os soldados são palhaços, o sol nasce quadrado, o tanque militar parece um desenho infantil. Era uma das formas de protestar e questionar o regime", comenta Valéria. "Ao mesmo tempo, gostava de ser chamada de costureira e pensava a moda em 360º, criava desde vestidos de gala para estrelas como Joan Crawford e Liza Minnelli, até cintos, bolsas e objetos para casa, como porta-copos e lençóis. Ela foi pioneira", contam os curadores.

 

Desfile - Protesto 

O vestido branco é uma das tantas peças que Zuzu desfilou em Nova York, em 1971, e até hoje não tinham sido vistos na passarela. A mostra traz também cenas até então inéditas deste desfile-protesto, que acrescenta um capítulo na compreensão da vida da estilista. Engenhosa, ela, que sabia ser proibido por lei criticar o País no exterior, organizou seu desfile em um território tecnicamente brasileiro, a casa do embaixador brasileiro em Nova York.

 

Assim, ao desfilar sua revolta, ela não seria acusada de tecer críticas negativas ao Brasil fora dele. A estratégia surtiu efeito, seu protesto e sua luta por justiça e pelo corpo de Stuart ganharam as páginas dos jornais internacionais, que propagaram ao mundo o protesto estampado em seus vestidos. Suas peças delicadas, e até mesmo lúdicas, contrastavam com a aridez dos temas bélicos. Uma atitude que impressiona e emociona.

Nem mesmo a filha de Zuzu, a jornalista Hildegard, tinha visto o vídeo do desfile, que marca a fase mais dramática da vida da estilista mineira. Zuzu, que fora casada com o americano Norman Jones, pai de seus filhos (Hildegard, Stuart e Ana Cristina), ousou divulgar internacionalmente o que se passava no Brasil, atraiu atenção dos militares e entrou para a lista de 'personas non gratas' do regime. Poucos anos depois, em 1976, ela morreu em um acidente de carro suspeito.

 

Foi Lopes Jn quem mostrou o desfile para Hilde, criadora do Instituto Zuzu Angel e do Museu da Moda. A jornalista pode não ter visto o desfile-protesto de sua mãe, mas acompanhou toda sua carreira e, mesmo 38 anos após a morte da estilista, ainda descobre novos capítulos da vida e do trabalho de uma das maiores profissionais da moda que o Brasil já teve. "O acervo da Zuzu é dinâmico. A cada dia, recebemos novas doações, descobrimos novos fatos, revelações, documentos. As pessoas trazem cartas, roupas, fotos, vídeos. E essa é a exposição mais completa da Zuzu Angel já realizada", comenta a jornalista. "Para o Museu da Moda, recebo doações de peças de outras grifes. Para o Instituto Zuzu, há três semanas recebi peças de Belo Horizonte", conta Hilde.

 

"As pessoas se sentem participantes. E são, porque é a história do Brasil. Elas viveram a tragédia. E as que não viveram querem reparar esta injustiça, apaziguar a dor. É um carinho. Outro dia, uma jornalista trouxe três roupas lindas que comprou na loja de Ipanema. Uma delas está na exposição", relata a curadora, que mantém o acervo Zuzu Angel em um apartamento anexo ao seu, no Rio. "Olho os vestidos de mamãe nas araras, já são quase sexagenários, bem cuidados, prontos para viverem um grande momento na Ocupação. Fico emocionada. Como consegui guardar, preservar, reunir tudo isso até hoje?", questiona Hilde. "Via mamãe guardar recortes, tecidos, fazendo anotações sobre estampas, tecidos, vestidos para que as costureiras trabalhassem; fazendo álbuns. Ela passou isso para mim e minha irmã. Foi Ana quem levou para a Europa, onde morava quando mamãe morreu e guardou muita coisa."

 

São tais relíquias, mais de 400 itens ao todo, que revelam as cores, estampas, bordados e a brasilidade que a estilista louvava sem medo de ser criticada pelos então defensores da moda estrangeira. "Mamãe misturava chita com seda, renda, com motivos do folclore. Queria que a moda dela ganhasse as ruas, fosse símbolo de liberdade, de tema e movimento. E conseguiu."

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