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Mostra sobre tauromaquia terá obras de Dalí, Goya e Picasso

A luta entre o bem e o mal é o tema principal de gravuras e desenhos de Dalí, Goya e Picasso

Camila Molina, O Estado de S. Paulo

08 de maio de 2014 | 03h00

A tauromaquia trata basicamente da luta entre o homem e a fera, da razão humana sobre a força bruta. "É sobre o bem contra o mal", resume a checa Monika Burian Jourdan, curadora, ao lado da italiana Serena Baccaglini, da mostra que apresenta três diferentes visões das touradas - ou do embate com os touros - pelas mãos dos artistas espanhóis Goya, Picasso e Dalí, a ser inaugurada sábado no Museu de Arte Brasileira (MAB) da Faap. São exatamente 303 gravuras e desenhos originais dos mestres, reproduções, fotografias e a escultura de bronze Minotauro, de Salvador Dalí.

Primeiramente, Tauromaquia foi exibida em Praga, em 2012, onde a exposição reuniu não apenas as obras dos três gênios da Espanha como ainda trabalhos de jovens artistas contemporâneos da República Checa. "Descobrimos que aqueles criadores, mesmo sem nenhuma tradição de touradas, usaram o conceito para expressar sua dissidência contra a força bruta do comunismo", comenta Serena Baccaglini. O interessante é justamente o tema ser universal, mitológico, completa a italiana.

Na versão que chega agora a São Paulo, a mostra não promove diálogo com a arte local, mas traz como diferencial os exemplares da série gráfica Le Cocu Magnifique (1966), de Pablo Picasso. Artista mais bem representado da exposição, o autor da Guernica explorou a tauromaquia já nos preparativos da criação dessa monumental pintura em cinza e preto e branco. De forma explícita, anteriormente, na concepção das águas-tintas Sonho e Mentira de Franco (1937). O pintor, assim, recorre a uma alegoria tradicional espanhola para falar dos destroços da Guerra Civil e da ditadura franquista em seu país.

Os touros, no entanto, aparecem na obra de Picasso (1881-1973) também como reverência ao mestre Francisco de Goya y Lucientes (1746-1828).

Sua série Tauromaquia (1815/16) é exibida na Faap em sua totalidade, ou seja, 40 obras feitas nas técnicas da gravura em metal, água-forte, água-tinta, ponta seca e caneta. "São cenas reais de tauromaquia que Goya criou com base em sua memória porque não poderia fotografá-las", afirma Monika. "É ainda o período em que ele, um pintor da realeza, começa a se opor aos reis, a fazer sua crítica a esta sociedade."

Para completar o time, Salvador Dalí (1904-1989) traz o vermelho para suas litografias em torno das touradas.

A visão de três mestres

Um dos destaques da exposição Tauromaquia, que vai ser aberta no sábado para convidados e no domingo para o público no Museu de Arte Brasileira (MAB) da Faap, é a apresentação de uma edição feita a partir dos desenhos preliminares que Pablo Picasso realizou para compor a pintura Guernica, na qual um touro é representado com três olhos.

Os originais pertencem ao Museu Reina Sofia de Madri, onde o quadro criado como reação ao bombardeio na cidade espanhola, em 1937, fica exposto. Mas será possível ver, em São Paulo, 42 trabalhos editados na década de 1950 dos esboços do artista. "Ele começa usando cores para mostrar as expressões das pessoas durante a guerra e do cavalo, mas aos poucos vai deixando o colorido para chegar ao preto e branco, sua solução final", afirma a curadora Serena Baccaglini. A concepção da histórica pintura remete, na verdade, à série Sonho e Mentira de Franco do espanhol, também em exibição.

O projeto da exposição começou, justamente, com Pablo Picasso, que dedicou boa parte de sua trajetória à tauromaquia (também uma expressão sobre a fertilidade). Tão vasta é a aparição do tema em suas criações que a Fundação Picasso de Málaga (cidade natal do artista) convidou as curadoras da mostra, elas contam, para a realização de um catálogo raisonné sobre esse segmento. Entre gravuras, desenhos, fotografias e reproduções, o pintor é representado na mostra por 125 peças.

Além das já citadas Sonho e Mentira de Franco (1937) e Le Cocu Magnifique (1966), a exposição traz obras do conjunto intitulado Carmen (1949), ilustrações para o romance de Prosper Mérimée. Trata-se de 38 gravuras "retratando faces de homens e mulheres, os costumes da Andaluzia, e cabeças de touros", explica Serena. De séries, ainda, é importante destacar o poema O Cantos dos Mortos (1941), de Pierre Reverdy, ilustrado pelo espanhol com espécies de símbolos abstratos e vermelhos. E mais, principalmente, seus trabalhos intitulados Tauromaquia, gravuras em metal, água-tinta açucarada e ponta seca executadas em 1959 e que se originam da Tauromaquia Suite, de 1957. Nelas, curiosamente, a luta entre o bem e o mal é explorada pelo recurso do uso da luz e sombra, do branco e do preto. Pela técnica usada por Picasso, essas obras ganham uma fluidez nos traços, uma "rapidez".

Escola. "Quando Picasso reduziu os trabalhos literais da tauromaquia a uma série de gravuras simples, ele captou os fundamentos essenciais das regras e dos rituais cerimoniais a serem incluídos no esporte da tourada por toda a Espanha", descreve Serena Baccaglini. Em um dos trabalhos da série (que está na página 1 do Caderno 2) é possível perceber a menção que o pintor cubista faz a Goya - uma representação acrobática do toureiro que também aparece nas obras criadas no século 19 pelo mestre.

Na mostra Tauromaquia, assim, a presença de Goya é fundamental. A série gráfica homônima é referencial na carreira do artista, ao lado dos outros conjuntos que ele executou em cerca de 30 anos - Desastres da Guerra, Caprichos e Disparates. Criações repletas de crítica e de ironia foram exibidas, em 2007, no Masp. "A edição de melhor qualidade desta série estará aqui", define Monika Burian Jourdan, completando que são peças provenientes de uma coleção particular europeia (aliás, como a maioria dos trabalhos expostos). "Uma das gravuras representa a morte, na arena, do famoso toureiro Jose Delgado, autor da bíblia da tauromaquia no século 17", conta Serena Baccaglini.

Por fim, Salvador Dalí está representado na exposição por apenas oito obras. Além da escultura Minotauro, o catalão - que terá grande mostra de suas criações no Brasil (leia abaixo) - participa de Tauromaquia com série de litografias realizadas em 1965. "Picasso dizia que Dalí era melhor ilustrado que pintor", diz a curadora italiana.

São trabalhos do surrealista inspirados na Tauromaquia Suite, de Picasso. Conta Serena que a série foi presenteada pelo artista a sua editora nova iorquina Phillys Lucas, proprietária, falecida, da Old Print House. "A tourada é a única arte na qual o artista está em perigo de morte e em que o grau de esplendor na apresentação é deixado para a honra do lutador", diz Serena, citando trecho de livro do escritor Ernest Hemingway no catálogo.

TAUROMAQUIA

MAB-Faap. Rua Alagoas, 903, 3662-7198. 3ª a 6ª, 10 h/ 21 h; sáb. e dom., 13 h/ 18h. Grátis. Até 22/6. Abertura sábado, 17h, para convidados.

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