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Mostra sobre Fellini estreia em SP com catálogo e retrospectiva

Evento, no entanto, fica devendo os filmes completos do diretor: apenas trechos serão apresentados

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2012 | 03h11

Tutto Fellini - os filmes, as caricaturas, os desenhos, o catálogo editado pelo Sesc, em parceria com o Instituto Moreira Salles. O evento que começa nesta quinta-feira, 5, em São Paulo contradiz o próprio conceito. Consta de uma exposição e do lançamento de um catálogo, acrescidos, no IMS do Rio, de uma retrospectiva do grande diretor. Em São Paulo, serão apresentados trechos dos filmes, mas não a obra inteira. Todo Fellini sem os filmes? Impossível. Mas o catálogo e a exposição são impecáveis. Il grande buggiardo, o grande mentiroso. O próprio Fellini admitia haver criado uma biografia imaginária, mas alguns dados são irrefutáveis. Nasceu em Rimini, 1920, morreu em Roma, a cidade que adotou, em 1993. Foi jornalista e roteirista e, ao chegar à capital italiana, vindo da província, ligou-se ao universo do humor. Colaborou com o jornal satírico Marc'Aurelio. Integrou-se ao boom dos fumetti, que assolavam a Itália.

Na tela, o neo-realismo confrontava os italianos com a realidade do país derrotado na guerra. Mas havia os quadrinhos e as fotonovelas, que forneciam um doce escapismo, como as telenovelas hoje. O nome fumetti refere-se aos balões usados para abrigar os diálogos e que se parecem com fumaça saindo da boca dos personagens. Ao virar diretor, logo no segundo filme - o primeiro solo, Abismo de Um Sonho -, Fellini mostrou Brunella Bovo como a interiorana que, em plena lua de mel, se perde do marido em Roma e parte em busca do seu personagem preferido nos fumetti, o xeque branco. Woody Allen não deixa de reproduzir essa odisseia (urbana) em Para Roma, com Amor, na história do casal que chega de Pordenone para se perder (e reencontrar) na cidade grande.

Fellini foi sempre um extraordinário observador - o circo fez parte de suas lembranças mais antigas e ele o incorporou, em clássicos como A Estrada da Vida e Os Palhaços. A mídia foi mais que um meio de expressão, virou um tema. Fotógrafo e repórter em A Doce Vida, outdoors em A Tentação do Dr. Antônio, episódio de Boccaccio 70, a TV, em Ginger e Fred, o cinema sempre, mas especialmente em Oito e Meio e Entrevista. Os fumetti inspiraram projetos inacabados - como A Viagem de G. Mastorna, que virou HQ na revista Ciak, nos anos 1990, e até um Mandrake em formato de fotonovela, com Marcello Mastroianni no papel do mágico de Stan Lee.

A exposição e o catálogo contemplam a seção chamada A Cidade das Mulheres, sobre a representação do feminino na obra felliniana - mamas, prostitutas e as figuras etéreas, chaplinianas de Abismo de Um Sonho e A Estrada da Vida. Também as fotos dos anônimos que se candidatavam a papéis em filmes do diretor, em especial a partir de Oito e Meio, quando ele pulverizou a estrutura dramática e abriu espaço cada vez maior para os 'tipos' que povoavam seu imaginário. O próprio Oito e Meio documenta a busca pela Saraghina ideal, que habita os sonhos do alter ego de Fellini, Guido Anselmi. É curioso verificar como se alimentava o processo criativo do autor. Ele guardou as imagens de uma jovem atriz que vira fazendo strip-tease numa balada romana dos anos 1950. Virou a personagem de Nadia Gray, que faz aquele strip-tease na festa final de A Doce Vida, de 1960. Tudo fascinante, mas nenhum evento sobre Fellini fica completo sem os filmes. Os próprios filmes ganham vida embalados nas trilhas de Nino Rota. Em silêncio, sem movimento, "Tutto" vira 1/2 Fellini.

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