Mostra sobre escravidão traz vídeo produzido no Brasil

Por causa do bicentenário da aprovação da lei que aboliu o comércio de escravos no Reino Unido, um museu londrino convida a analisar o fenômeno da escravidão e seu impacto não apenas histórico, mas também no mundo de hoje. O Victoria & Albert Museum, em Londres, reuniu os trabalhos de 11 artistas contemporâneos da Europa, da África e das Américas em uma mostra intitulada Verdades Incômodas, que ficará em exposição até o dia 17 de junho. No entanto, ao invés de colocar as obras em salas fechadas, os responsáveis pela exibição decidiram espalhá-las por todo o museu, desde o saguão de entrada até o pátio central, passando pelas galerias dedicadas à arte britânica. "A escravidão é um problema global, que ainda existe hoje em dia, e acreditamos que a melhor forma de refleti-lo era usar o museu em seu conjunto para expor as obras", disse a curadora da exposição, Zoé Whitley, na apresentação da mostra à imprensa. As pessoas que chegam ao Victoria & Albert Museum se deparam, já na entrada principal, com uma gigantesca pintura de um navio negreiro. A intenção do autor, o artista Julien Sinzogan, de Benin, é chamar a atenção para os milhões de africanos forçados a abandonarem sua terra e se tornarem escravos. Passeando pelas galerias de arte britânica, o visitante se surpreende com figuras em tamanho natural de escravos que são vistas, de repente, em frente a uma tapeçaria ou no meio de uma livraria rococó. As figuras, criadas por Lubaina Himid, pretendem relembrar o papel, às vezes invisível, que a escravidão desempenhou na história britânica, e, para isto, o artista coloca por trás de cada uma um balanço que registra a contribuição dos escravos para o Reino Unido e o que eles ganharam em troca. Também nas galerias britânicas o britânico Keith Piper colocou vitrines diferentes que contêm livros supostamente escritos por escravos e uma réplica de uma coroa da Rainha Vitória, mas na qual o artista americano Fred Wilson substituiu os diamantes brancos por outros negros. Negeriano foi escravo no Brasil Os trabalhos englobam diferentes correntes artísticas, desde a pintura e a escultura até o vídeo, como o criado pela alemã Christine Meisner sobre João Esan de Rocha, um nigeriano nascido em 1830 que, com dez anos, foi levado como escravo para o Brasil. Após trabalhar 31 anos em uma plantação em Salvador, o cativo conseguiu voltar para seu país de origem, mas "não foi capaz de se reencontrar com suas raízes", explicou Meisner à EFE. "Havia assimilado a cultura brasileira. Falava português e tinha se convertido ao catolicismo. Virou um estrangeiro", acrescentou a alemã, que dedicou um ano à pesquisa, passando temporadas no Brasil e na Nigéria e conversando com descendentes do escravo. Outro vídeo, criado por Michael Paul Britto, mostra um grupo de escravos negros dançando ao ritmo do sucesso de Britney Spears I´m a Slave 4 U. Campanha nacional A exposição faz parte de uma campanha nacional para comemorar o bicentenário da aprovação, em 25 de março de 1807, da Lei de Abolição do Comércio de Escravos. No entanto, foi apenas 26 anos depois, em 1833, que a Lei de Abolição da Escravidão foi aprovada, proibindo a prática em todo o Império Britânico, apesar de os escravos não obterem a liberdade até 1838. Cerca de 24 milhões de pessoas viraram escravos na África, mas apenas dez milhões sobreviveram à travessia transatlântica, segundo os organizadores da campanha Anti-Slavery International.

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