Mostra revela um Santos Dumont designer

A figura de Santos Dumont é lendária: é ele o criador do 14 Bis, a aeronave que em 1906 decolou no Campo de Bagatelle em Paris e se tornou, com um brasileiro como piloto, na primeira máquina e ficar um tempo no ar e depois pousar. É um grande feito, no início do século passado, mas que se transformou num "manto" que encobre de superficialidade todos caminhos que Santos Dumont percorreu e outras de suas criações. Ele, como define a diretora do Museu da Casa Brasileira, Adélia Borges, é nome de rua, de cidade, aeroporto, etc; é o criador do 14 Bis, mas é preciso "desvelar" sua faceta de grande "designer sonhador e perseverante". Por isso, hoje o Museu da Casa Brasileira inaugura para convidados e amanhã para o público a exposição Santos=Dumont Designer para mostrar para o público que as as criações do brasileiro são capazes "de nos dar lições até hoje". A mostra, com concepção e montagem do artista Guto Lacaz, foi pensada para coincidir com as comemorações do centenário do vôo do 14 Bis em Paris - primeiro, Dumont fez uma demonstração em 23 de outubro de 1906 (fato comentado e amplamente divulgado na época) e outra, definitiva, no dia 12 de novembro daquele ano - nesse, voou 200 metros a 6 metros de altura. Tornou-se uma celebridade na Paris da Belle Époque. A idéia de realizar essa exposição agora vem sendo maturada por Adélia e Lacaz desde 1998, por meio de diversas conversas sobre Santos Dumont. Ela é cheia de surpresas e, para tanto, contou em sua concepção com a participação do Ph.D. em aerodinâmica e professor da USP-São Carlos, Fernando Martini Catalano; e do físico Henrique Lins de Barros, que no dia 10, das 19h30 às 21h30, realizará uma palestra aberta ao público. Além da criação de túneis de vento, uma das maiores surpresas é a recriação do Campo de Bagatelle no belo jardim do museu: por duas vezes ao dia serão reproduzidas demonstrações dos dois vôos do 14 Bis com modelos menores. Mas isso é apenas, ainda, girar em torno da célebre aeronave. SimplicidadeSantos Dumont criou tantas outras máquinas e obras: balões, aeronaves que construía e pilotava - sua obra-prima, segundo especialistas, é o modelo Demoiselle, de 1909, destaque na Primeira Exposição Aeronáutica no Grand Palais, de Paris, e primeiro avião a ser produzido em série -, hidroplanos, dirigíveis, motor de eletricidade a vento, triciclo, mobiliário, design de interiores e até um relógio de pulso Cartier, como se pode ver na mostra e no catálogo preparado para a ocasião. Segundo Guto Lacaz, uma palavra define todas as criações desse homem precursor - a simplicidade. "A beleza do design de Santos Dumont era o resultado da relação entre economia de meios, leveza de execução e clareza de objetivos." Mineiro, nascido em 20 de julho de 1873 em Cabangu, na Serra da Mantiqueira, Alberto Santos Dumont era filho de um engenheiro, Henrique Dumont. Seu pai, de família francesa, comprou fazenda de café em Ribeirão Preto (SP) - que logo se transformou em um rentável negócio, uma das maiores produtoras do grão no País. Desde a infância, na fazenda, em meio às leituras das histórias de Júlio Verne, Santos Dumont já se interessava pelas máquinas: como afirma Adélia Borges, ele as desmontava e reconstruía obsessivamente. "Dificilmente se conceberia meio mais sugestivo para a imaginação de uma criança que sonha com invenções mecânicas", cita a diretora essa passagem presente na autobiografia do nosso "pai da aviação", Os Balões, de 1904.

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