Mostra revela o colecionador Mário de Andrade

A atividade do escritor Mário de Andrade como colecionador não se limitou a guardar os inúmeros retratos que os maiores nomes do modernismo brasileiro - de Anita Malfatti a Tarsila do Amaral - pintaram dele. O autor de Macunaíma, um dos idealizadores da Semana de Arte Moderna de 22, foi também um empolgado colecionador de arte religiosa e artesanato popular, recolhendo objetos de Norte a Sul do País durante suas andanças como "turista aprendiz" e pesquisador do folclore brasileiro. É justamente essa coleção inédita, formada entre 1919 e 1945, que o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo (USP) exibe, a partir de hoje, em sua sede, na Cidade Universitária. São 236 objetos entre imagens religiosas (católicas e afro-brasileiras), instrumentos musicais e indumentária indígena, reproduzidos no luxuoso catálogo de 448 páginas publicado em regime de co-edição pela Edusp e Imprensa Oficial, o penúltimo da coleção de 12 volumes Uspiana Brasil 500 Anos, lançada há quatro anos. É a primeira vez que o público vai ver o conjunto dessas peças que integram o acervo do escritor, adquirido pela USP em 1968 e tombado pelo Iphan em 1995. A mostra, que tem curadoria da professora Marta Rossetti Batista e projeto museográfico de Marcos Moraes, prepara o caminho para um seminário a ser realizado na USP, entre outubro e novembro, sobre Mário de Andrade e sua coleção. Revela um ambicioso projeto de estudo sobre as características do povo brasileiro, animado pela influência da antropóloga Dina Lévi-Strauss, que chegou ao Brasil com o marido Claude nos anos 30 e tornou-se amiga do escritor brasileiro. Como diretor do Departamento de Cultura do Município, embrião da atual Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, Mário convidou-a para cuidar da área de etnologia e folclore. Uma das grandes descobertas - ou autodescoberta - do autor foi a arte religiosa de origem afro, que o levou a um terreiro da Paraíba, onde teve o corpo "fechado" por uma mãe de santo, em 1927. Amigo do compositor Pixinguinha, um iniciado nos mistérios do candomblé, Mário era, então, apenas o neófito tímido que escapara da congregação mariana para ver o que se passava no reino dos orixás. Um ano depois, em Macunaíma (1928), ele descreve uma cena de macumba destinada a convencer qualquer turista aprendiz, após ter recolhido artefatos indígenas na Amazônia e objetos relacionados às danças populares no Nordeste. Muitos amigos, lembra ela, ajudaram o escritor na coleta dos objetos, em particular seu companheiro no Departamento de Cultura, Luiz Saia, que dirigiu a missão de pesquisas folclóricas enviada por Mário ao Nordeste para recolher material sobre danças e costumes populares. Saia fez mais. Voltou com dezenas de santos e exus. Coleção Mário de Andrade. instituto de Estudos Brasileiros da USP. Av. Prof. Mello Moraes, 140/Trav. 8, cidade Universitária. De segunda a sexta, das 14h às 17h. Tel: 3091-3199. Até 25/1/05. Abertura hoje, às 17h.

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