Mostra revela as várias faces do mito Napoleão

Combinando mito e história, ficção de realidade, a Faap inaugura hoje uma megaexposição dedicada a uma das maiores figuras políticas do Ocidente: Napoleão Bonaparte (1769-1821). Para realizar essa mostra, que reúne quase 400 objetos dos mais variados - desde tesourinhas de unha até um esboço inédito da célebre pintura de Jean-Louis David representando a coroação de Napoleão - e uma sofisticadíssima cenografia, foi necessária a colaboração de diversas instituições francesas, do Louvre ao Museu Carnavalet, passando por um curioso acervo de miniaturas situado em Compiègne, que cedeu os pequenos personagens em chumbo para as cenas de luta que devem fazer a alegria dos meninos - e de seus pais.Coordenando todo o conjunto e cedendo a maior parte dos objetos está a Fundação Napoleão, instituição criada em Paris há cerca de 15 anos e que reúne mais de mil objetos relacionados ao monarca. Segundo seu diretor, o historiador Thierry Lentz, o intuito dessa exposição - que exibe pela primeira vez uma série de objetos inéditos - é permitir que o público conheça um pouco mais desse fascinante personagem, ao mesmo tempo tão próximo e tão distante do público. Não há uma linha única de apresentação do personagem, mas uma sobreposição de enfoques que vão desde a curiosidade por sua vida íntima até uma reflexão mais profunda sobre a efervescência política do momento. "Cada um vai poder encontrar aqui o Napoleão que espera conhecer mais de perto", explica ele.Para facilitar a visitação, a exposição foi concebida em dois blocos principais. A área do Museu da Faap foi ocupada por uma mostra circular, que enfoca as grandes questões associadas ao monarca: a lenda, a glória, a guerra e a morte. Nesse local há belíssimos exemplos de obra de arte, como o já mencionado estudo de David e outros esboços importantes, como aqueles desenhos preparatórios para os baixos-relevos criados em sua tumba. Mas quem esperar apenas precisão histórica poderá se decepcionar, pois a mostra mescla o tempo todo - e principalmente no segundo núcleo, instalado na sala cultural do museu - ficção e realidade.Há personagens fictícios, truques cenográficos de grande impacto como a paisagem erma e noturna no Egito ou a cena do incêndio de Moscou, com direito a chamas e tudo. A idéia é informar o visitante o máximo possível, esclarecendo quando ele está diante de uma licença poética e visual e quando está diante de um objeto que realmente pertenceu a Napoleão ou a seu tempo. Mais do que detalhes sobre a história da confecção desta ou daquela peça, o que Lentz procurou ressaltar foi a narrativa por trás daquele elemento. "Odeio quando a história da arte esmaga a história que o objeto pode nos contar", explica o historiador, que já escreveu mais de 17 livros sobre Napoleão. Assim, espadas, máscara mortuária, trajes dele e da família, brinquedos do filho morto prematuramente e que foi imperador por apenas um dia compõem uma curiosa narrativa.Mesmo na França há um grande desconhecimento em relação à figura de Napoleão, ressalta Lentz. "As pessoas conhecem cada vez menos sua história", conclui ele. Também é impressionante a quantidade de informações desencontradas, de estórias inventadas e de obras de qualidade questionável acerca de sua trajetória. Neste último quesito, Lenz inclui a recente biografia escrita por Max Gallo. Louco, ditador, guerreiro obstinado, liberal, revolucionário, homem cruel que renegou a esposa que não podia lhe dar filhos, imperador que queria conquistar toda a Europa... Todos esses atributos já foram colados à figura desse homem que escolheu a águia como símbolo e que está intimamente associado à transformação da paisagem política mundial, abrindo caminho para a modernidade que adviria com o século 19.Napoleão. Segunda (25) e de terça a sexta, das 10 às 21 horas; sábado, domingo e feriado, das 13 às 18 horas. MAB/Faap. Rua Alagoas, 903, tel. 3362-7198. Até 2/11.

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