Mostra revela arte de uma arquitetura inusitada no Nordeste

Em tempos de aeroportos lotados e vôos incertos, nada mais oportuno. O saguão de desembarque internacional do Terminal 1 do Aeroporto Internacional de Guarulhos apresenta, de hoje à noite até o dia 4, a exposição Mario Aloisio - Traço do Arquiteto, retrospectiva dos 30 anos de trabalho do mestre alagoano na arte de criar formas inusitadas. Um exemplo é o projeto do Aeroporto Internacional Zumbi dos Palmares, em Maceió, que, visto de cima, tem o formato de um imenso olho. A íris verde desenhada no teto filtra a luz do sol projetando no chão a cor do mar alagoano, intenção de Aloisio. A maquete do aeroporto está no centro da exposição, cujo destaque é um painel com a fusão de três fotos, uma do Rio São Francisco, outra da Praia do Bunga e uma terceira da Lagoa de Maceió. Nesta, Aloisio projetou uma palafita para Janice Vilela, filha caçula do ex-senador Teotônio Vilela. A réplica fica na frente do painel. Pastilhas feitas com casca de coco e telhado de sapé A marca de Aloisio é justamente esta: linhas e cores ousadas, formas criativas, utilização de material local como as pastilhas feitas com casca de coco e o telhado de sapé. Pelo inusitado, o arquiteto assemelha-se a Ruy Ohtake e seu hotel-melancia, construído em São Paulo. Mas foi de Oscar Niemeyer, com quem trabalhou no Memorial Teotônio Vilela ano passado, que ele arrancou elogios. ?Mario Aloisio compreende bem os segredos da arquitetura?, disse Niemeyer. A frase é reproduzida na contracapa do livro homônimo à exposição. Aloisio constrói muito no Nordeste e pode ter sido apreciado por alguns dos passageiros que transitam por Cumbica sem que esses saibam de quem é determinado edifício. Ele defende a criação de uma escola pernambucana de arquitetura, apesar de achar a idéia pretensiosa perto das escolas carioca e paulista. Para endossar sua tese sobre a forma peculiar de o nordestino fazer projetos arquitetônicos, ele usa uma bíblia local de arquitetura, o livro Roteiro para Construir no Nordeste, de Armando de Holanda. Prédio no nordeste busca a sombra e o vento Enquanto os prédios de São Paulo viram-se para cá e para lá atrás do sol, os nordestinos se escondem da luz, criando ambientes que valorizam a sombra e tiram proveito do vento, um patrimônio local. ?O clima favorece uma arquitetura de alpendres?, ensina Aloisio, enquanto dá os últimos retoques na exposição. ?Mas de fato há uma ambiência maior na arquitetura nordestina, porque há uma cultura local forte, menos sujeita ao estilo imposto pelo mercado?, considera. A paisagem local, no entanto, não está livre da globalização, que surge em hotéis de estilo caribenho. ?Tive um cliente que me pediu para fazer um edifício parecido com um hotel do México?, conta. Dos 300 trabalhos realizados em 12 Estados brasileiros, são destacados na exposição a Capela do Sertão, em Delmiro Gouveia (AL), que tem formato de concha, e a Igreja Nossa Senhora da Misericórdia, em Fortaleza (CE), que faz referência à vegetação local, de cactos, mandacarus e agaves. Edifícios de Aloisio como o Cozumel, em Maceió, de forma oval e pastilhas brancas e vermelhas, mostram que é possível ousar na produção residencial do setor imobiliário e fazem a capital São Paulo parecer uma senhora conservadora.

Agencia Estado,

08 Novembro 2006 | 11h16

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