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Mostra revê obras do continente, mas não escapa de alguns velhos preconceitos

'América Latina 1960/2013 – Fotografias' começa na terça na Fundação Cartier e traz artistas de 11 países

Sheila Leirner - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

15 de novembro de 2013 | 20h25

A exposição América Latina 1960/2013 – Fotografias, que se inaugura na terça na Fundação Cartier, pretende oferecer uma nova perspectiva sobre a fotografia do continente, “através do prisma da relação entre texto e imagem”. Esta mostra, que reúne 72 artistas de onze países, é uma das 80 manifestações que transformam Paris em capital mundial da fotografia até o final do mês. Dos artistas apresentados, entretanto, apenas alguns são fotógrafos. E do continente, graças a uma curadoria autárquica por “amostras”, a representação é redutora.

Explorando a estrita interação entre texto e imagem através de épocas tumultuosas da história, a perspectiva evidentemente se estreita. Mais ainda quando se pensa que a exposição foi organizada unicamente por curadores estrangeiros, sem que um comitê de consultas de especialistas latino-americanos fosse formado. A coprodução com o Museu Amparo de Puebla do México cauciona o caráter latino-americano da exposição, porém não esconde a habitual e altiva “autossuficiência” dos franceses.

Neste aspecto, entre outros, eles teriam bastante a aprender com os alemães, coautores, por exemplo, da exposição Arte da América Latina 1911 - 1968, apresentada em 1992 no Centro Pompidou em Paris e depois em Colônia. Nada menos do que dez conselheiros, mais centenas de personalidades e instituições, foram consultadas para impedir a visão redutiva de um continente formado por países geográfica, política, econômica, social e culturalmente tão únicos e diferentes entre si.

Claro, esta exibição organizada pelos seis curadores da Fundação Cartier não tem o mesmo porte e alcance. Porém, trata-se de um recorte que, como todos, é parcial e pode mistificar um pouco mais a imagem já falsificada que os europeus, sobretudo os franceses, tem da “exótica” e desconhecida América Latina. Até hoje, pelos menos um terço deles ainda acredita que a capital do Brasil é Buenos Aires e que falamos espanhol.

Em se tratando de arte, existem várias américas latinas; em se tratando de fotografia, igualmente. Aqui, pensando que se oferece uma “nova perspectiva sobre a fotografia”, não se faz muito mais do que usar a história marcada pela instabilidade política e econômica, o contexto de movimentos revolucionários, guerrilhas, regimes militares, ditadura, repressão e transições democráticas, como baliza da produção artística. Ou seja, comete-se um erro epistemológico, utilizando o caminho inverso que uma curadoria de arte deveria seguir: partir das expressões artísticas para, eventualmente chegar – ou não – às questões e fatos externos a ela.

O mesmo ocorre com a noção que transmite a exposição sobre as conexões estreitas entre arte e escrita como instrumento de luta e resistência desde os tempos de Bolívar; arte e poesia, com os concretistas dos anos 50; e, de maneira mais vaga, arte e literatura com Jorge Luis Borges, Pablo Neruda e Octavio Paz. Novamente é a história e o conhecimento que servem como “boia de navegação”, sempre interna à estrutura autárquica da instituição parisiense.

América Latina 1960/2013 divide-se em quatro seções temáticas: Territórios, Cidades, Informar-Denunciar, Memória e Identidades. A maior parte das obras usa a fotografia apenas como suporte. Só a lista dos artistas escolhidos faz adivinhar que a técnica e a linguagem fotográfica são na maior parte das vezes amplamente ultrapassadas por outros meios, como foto/ofsete, serigrafia, colagens, performances, vídeos e instalação. Na realidade, embora seja apresentada no âmbito do “mês da fotografia”, esta não é uma “exposição fotográfica”. Mais do que isso, é uma exposição imagética.

Não que se queira negar a nobreza da intenção da Fundação Cartier. Ajudar a descobrir artistas e obras situados à margem das trajetórias habituais do mundo e do mercado da arte contemporânea, e testemunhar – por meio de 500 obras – a “vitalidade da arte latino-americana e a herança significativa que nos deixam os artistas” é bastante honroso. Porém, esse mesmo propósito poderia ter obtido resultados mais justos, em alguns casos com artistas mais representativos talvez, se não se tivesse optado pelo método surdo, fácil e autossuficiente da curadoria histórica por “espécimes notáveis”. Aquela que enxerga “de camarote” a turbulência dos valores onde a arte se origina.

Seleção de imagens sobre o Brasil é grande destaque da Paris Photo

A exposição Paris Photo, que termina hoje no Grand Palais e que dura apenas 3 dias, é uma espécie de déjà vu da Feira Internacional de Arte Contemporânea – FIAC, que ocupou o mesmo espaço há duas semanas. Treze das 136 galerias estão presentes pela segunda vez, 20 se levarmos em conta também a Frieze de Londres e a Feira de Basel. Apesar de todos os esforços de seu diretor Julien Frydman para revesti-lo de um caráter “cultural”, com exposições institucionais e particulares, conferências, discussões e uma parte dedicada a editores e livrarias especializadas, trata-se de mais um evento cuja dinâmica mercadológica e especulativa nem sempre contempla os verdadeiros valores.

Uma das três exposições institucionais de novas aquisições, convidadas a participar para imprimir seriedade à manifestação, é a que foi trazida pelo Instituto Moreira Salles. Com Looking at Cities, o IMS propõe ao espectador “a descoberta do olhar dos fotógrafos sobre as transformações espetaculares da paisagem brasileira”.

O conjunto é equilibrado e uníssono. Há fotografias recentes de Caio Reisewitz, que exploram os limites entre o Rio de Janeiro urbano e natural; imagens de Mauro Restiffe acerca do bairro da Luz em São Paulo; o olhar cinematográfico de Jorge Bodanzky sobre Brasília justamente em 1964, ano em que o Brasil começa a sombrar em duas décadas de ditadura militar. A intenção foi estabelecer um diálogo entre estes trabalhos e os livros de Rosângela Rennó e Lucia Mindlin Loeb, assim como com as admiráveis obras clássicas de Marc Ferrez, Militão Augusto de Azevedo, Revert Henry Klumb, Thomaz Farkas e Marcel Gautherot.

Modesta ao lado das retumbantes coletivas como as da coleção particular de Harald Falckenberg, da JPM Morgan Chase Art Collection, ou de Martin Parr (um conjunto de livros de protesto e panfletos fotográficos dos anos 60 e 70 até os dias de hoje), a exposição das 50 novas aquisições do IMS organizada por Sergio Burgi e Thyago Nogueira (revista Zum) é, no entanto, uma bela orquestração de câmara para a produção moderna e contemporânea da fotografia brasileira.

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