Mostra revê a fotografia como expressão artística

Mesmo sabendo da importância dafotografia para a produção contemporânea em todo mundo, nãodeixa de ser surpreendente a força dessa linguagem na históriarecente da arte brasileira, representada nos cerca de 200trabalhos que compõem a mostra Arte Foto, em cartaz até 28 defevereiro no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio. Não setrata de uma mostra de caráter retrospectivo, que se pretendaexaustiva, mas de um resumo - baseado em diferentes recortes etendências - do uso da fotografia como forma de expressãoartística, a partir da década de 70 no País.Na verdade, a mostra concebida por Lygia Canongia teminício algumas décadas antes, com a obra de dois pioneiros:Athos Bulcão e Geraldo de Barros. Apesar de excludente, aescolha dos dois tem um único objetivo: mostrar como aapropriação artística da fotografia no País é bem mais antiga doque as ousadias realizadas na década de 70 - o verdadeiro pontode partida cronológico da mostra.A partir de núcleos mais ou menos segmentados, quecontemplam das experimentações conceituais da década de 70 àsexperiências de caráter mais autobiográfico e ligadas àinvestigação do corpo humano que marcaram a produção da décadade 90, vemos desfilar uma seleção ampla e diversificada detrabalhos, assinados por 61 artistas, entre os quais seencontram nomes consagrados como os de Hélio Oiticica, AnnaBella Geiger, Lygia Pape e Waltércio Caldas; figuras quetransformaram a foto em seu instrumento básico de criação, comoMiguel do Rio Branco, Mario Cravo Neto e Vik Muniz; ou aquelesque praticamente nunca se aventuraram por essas searas, comoAdriana Varejão que em vez de trabalhar metaforicamente com aidéia de carne talhada em suas enormes telas, nos surpreende comfotos que flagram o banal interior de um açougue. Há também umespaço para artistas que vêm despontando mais recentemente, comoMárcia Xavier, Marepe e Marcelo Reginatto. E uma preocupação emestabelecer diálogos que vão além da mera ordem cronológica. Éinteressante por exemplo sentir os ecos das fusões de corpos deDaisy Xavier nas paisagens imaginárias de Vicente de Mello.Se a seleção de um leque amplo de poéticas nos permiteentender a importância da linguagem fotográfica para a artebrasileira, por outro lado essa fragmentação traz uma certafrustração, ao impedir um mergulho mais aprofundado natrajetória daqueles artistas que mais nos encantaram; paradirimir um pouco essa sensação - comum em mostras coletivas -foram organizadas algumas salas especiais, dedicadas a ArthurOmar, Alair Gomes e Carlos Vergara que, apesar do interesse e daqualidade dos trabalhos apresentados, talvez reflita mais aescolha pessoal da curadoria do que sua importância para acompreensão da relação cada vez mais íntima entre a fotografia eas artes visuais brasileiras.

Agencia Estado,

06 de janeiro de 2003 | 16h58

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