Mostra reúne serigrafias de Andy Warhol

Volta e meia Andy Warhol(1928-1987) ressurge entre nós. Bienais, eventos que discutem arelação entre a arte e a moda, exposições coletivas que têm porobjetivo analisar os complexos rumos da arte do século 20...Todos esses eventos são motivo para que o rei do pop, com suasapropriações do universo no consumo norte-americano - que algunsconsideram uma crítica genial ao modelo capitalista e outrosenxergam como oportunismo e esperteza -, reapareça aqui e ali,pontualmente, com seus ácidos e deslumbrados comentários sobre aera contemporânea. Quem já está acostumado com seus retratosicônicos (que vão de Marilyn Monroes e Mao Tsé-tungs a latas desopa Campbell) se surpreenderá, no entanto, com as obras daexposição que o BankBoston inaugura nesta terça-feira à noite em seuespaço cultural. Trata-se de uma mostra pequena, composta por apenas 15serigrafias - que pertencem à grandiosa coleção da matriz dobanco, um conjunto de 25 mil obras. Além do mais, são trabalhosque fogem um pouco da imagem tipicamente provocativa do artistanorte-americano que se voltou desta vez não para elementostípicos da civilização de consumo nova-iorquina, mas paraimagens que refletem com certo saudosismo da exuberância ebeleza da natureza. As obras são divididas em dois grupos e retratam florese animais (daí o subtítulo Fauna & Flora agregado à mostra). Oprimeiro grupo é continuação de um série de pinturas realizadaspelo artista entre 1964 e 1965, nos quais retrata - com pequenasvariedades de forma e cor - o Hibiscus fragilis, considerado emgrave risco de extinção. "Ao multiplicar o hibisco em numerosastiragens de serigrafia, o artista utilizou a reprodução em sérienão mais como reflexo e denúncia da massificação banalizante dacontemporaneidade, mas como poética alternativa para a sobrevidada planta. Transformada em arte, ela agora é eterna", escreveuAngélica de Moraes, no texto realizado especialmente para aatual exposição. Segundo a crítica, os trabalhos que retratam animaisselvagens têm resultado semelhante. Como no caso das flores, asimagens também são apropriadas de outros veículos eretrabalhadas graças ao acréscimo de cores e grafismos. A sériedos animais, que teve início com a majestosa figura da águiaamericana (símbolo do poderio dos EUA) e foi feita sob encomendapor Andy Warhol, expõe a artificialidade e não a beleza dessafauna em risco. "Há uma magistral ironia contida nessagramática visual. Ela primeiro seduz pela beleza para depoisconduzir à reflexão sobre o viés perverso do mundo artificialconstruído pelo homem, a civilização como origem da devastaçãoambiental", constata ela. Suas espécies em extinção são absolutamente edecididamente artificiais. É curioso notar as diferenças detratamento entre as duas séries. Enquanto em suas florespredomina um tratamento cromático da imagem, no caso dos animais o artista parece explorar o jogo gráfico de suas própriaspelagens, criando a partir dos elementos já dados pela próprianatureza. O próprio Warhol referia-se a elas como "animais commaquiagem". É como se o artista dotasse seus animais de umdisfarce que lhes permitisse participar desse medíocre mundo doconsumo, que o artista crítica e glamouriza ao mesmo tempo. Dosingelo sapinho ao gigantesco elefante, seus animais ganham umacapa de cores ácidas e jogo gráfico gritante, que seduz eatordoa nossos sentidos e rapidamente se esquece da supostaintenção inicial de crítica ou comentário outro que não aespetacularização estética. Aliás, essa é a grande crítica de fundo que se faz aAndy Warhol. Muitos o vêem não como crítico desse mundo da modae dos sucessos explosivos e inconsistentes, mas como mais umadessas figuras ousadas e criativas - com um pouco mais deperspicácia, coragem e inteligência - que a nossa sociedade deconsumo produz aos montes. Genial ou habilidoso, isso nãointeressa mais. O que interessa é que se tornou impossíveldiscutir a história da arte do século 20 sem colocar em seucentro a figura desse descendente de imigrantes checos, quecresceu na miséria e acabou se tornando o grande ícone da artepop norte-americana.Serviço - Andy Warhol - Fauna & Flora. De segunda a sexta das 9às 21 h; Sábado e domingo, das 10 às 18 h. Espaço CulturalBankBoston. Avenida Chucri Zaidan, 246, em São Paulo, tel.3398-2299. Até 9/3. Abertura amanhã(18) só para convidados, às20 h

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