Mostra redescobre os "heróis do samba"

É uma sala que mais parece um botequim. O violão, quase caindo, fica escorado na mesma parede que suporta um quadro em que Beth Carvalho sorri. Sentado a uma mesinha de ferro, daquelas de bar de periferia, Nelson Sargento, em preto e branco, é o retrato da desolação. A foto que registra o reino de Sargento é de Rui Mendes. Esse profissional que fez carreira clicando bandas de rock nos anos 80 mudou de ramo e foi fotografar a vida de velhos sambistas nas periferias de São Paulo e do Rio de Janeiro. Alguns estavam esquecidos, outros nunca foram famosos. Suas imagens, 26 ao total, estão reunidas em uma exposição que será inaugurada amanhã, às 11 horas, na cafeteria da Pinacoteca do Estado.Os Heróis do Samba, título da mostra, destaca pessoas que têm ou tiveram lugar cativo na roda, como Carlos Cachaça, Paulinho da Viola, Dona Zica, Nelson Sargento e Guilherme de Brito. Mas é também Toniquinho Batuqueiro, Dona Shirley da Nenê, Seu Carlão do Peruche e Bala do Salgueiro, que poucos conheceram. As imagens de todos foram captadas em suas casas e nos botecos que freqüentam. Sem a mínima interferência do fotógrafo.A inauguração será feita com uma roda de samba que terá alguns dos compositores paulistas como convidados. "Vou buscá-los de van, pois muitos não têm condições de ir sozinhos", diz Mendes. Sua intenção é a de trazer à abertura o clima da informalidade que conheceu em sua peregrinação pelas periferias. "O que fiz foi quase que um tratado sociológico sobre esta gente. Tudo foi captado com a mesma câmera e com a mesma lente. O trabalho ganhou uma unidade mais forte com isso".Rui Mendes chegou ao samba quando entrou na casa do carioca Carlos Cachaça, em dezembro de 1994. Encontrou um homem de 94 anos disposto a contar suas memórias. Os dois ficaram conversando por toda a manhã. "Comecei então uma peregrinação por vários bairros do Rio de Janeiro, de casa de sambista em casa de sambista, na qual o processo que se seguiu foi o da descoberta de um universo estético quase homogêneo", escreveu no release de apresentação.Descoberta foi mesmo, em muitos casos, o termo mais apropriado. Na Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro, Mendes "achou" o sambista e engraxate Bala do Salgueiro exercendo dignamente sua profissão, a de engraxate, aos 78 anos. No centro de São Paulo, avistou outro compositor e engraxate, Toniquinho do Pandeiro, nas mesmas condições. "Se no Rio eles sofrem com o descaso, em São Paulo a situação é ainda pior. Germano Mathias, por exemplo, é genial. E continua a viver em condições ruins." Dona Shirley é outro exemplar do quão pouco se sabe sobre o samba em São Paulo. A mulher foi simplesmente a primeira a puxar o enredo em uma agremiação, a Nenê de Vila Matilde. Seu Nenê, aliás, não teve o mesmo destino porque conseguiu fundar uma escola com seu nome. Ainda assim, boa parte de sua contribuição à música não lhe é creditada. Há quem diga que muito do que fez acabou sendo copiado pela velha guarda carioca. E Mestre Fuleiro? Muito pouco se sabe sobre o primo de Dona Ivone Lara que ajudou a fundar a Império Serrano, no Rio de Janeiro. Ganhou o nome de "Fuleiro" de tanto chamar assim seus amigos pernas de pau no futebol e foi quem teve a idéia de colocar os ritmistas no meio da escola e de usar a frigideira como instrumento de percussão.Carlão do Peruche tem 72 anos e não recorda, por exemplo, quem é o terceiro compositor que assina com ele e Nonô o enredo Exaltação a São Paulo, de 1958. Fez sambas com Toniquinho Batuqueiro e fundou a agremiação Unidos do Peruche em 4 de janeiro de 1954 e o Bloco Suvaco da Cobra, em 1974. Um documentário idealizado pelo fotógrafo, assim que tiver patrocínio aprovado, poderá ir mais longe. Fascinado com o material humano com o qual se deparou, quer percorrer o Brasil à cata de sambistas de pouca popularidade e muita história para contar. "Eles estão morrendo e quase ninguém sabe de sua existência." Será a chance para aparecerem velhas guardas baiana, maranhense e gaúcha. É verdade. Porto Alegre também tem sambistas nas mesmas condições. Uma outra história que Mendes quer contar em breve. Os Heróis do Samba. Pinacoteca do Estado (Praça da Luz, nº 2. Tel. 229-9844).

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