Mostra recupera arte barroca fluminense

A arte barroca fluminense é anterior à mineira ou baiana, mas pouco conhecida. Nas últimas exposições sobre esse período, tanto a que foi para Paris, em 1999, Brasil Barroco - Entre o Céu e a Terra, quanto a Mostra do Redescobrimento, no ano passado, não havia nenhum exemplar do que foi produzido no Estado. Para corrigir essa situação, a Casa França-Brasil, no Rio, abre amanhã a mostra Devoção e Esquecimento - Presença do Barroco na Baixada Fluminense, com 70 peças em barro cozido e madeira, produzidas entre meados do século 16 e o início do século 19."A denominação baixada é recente, pois até o século passado a região era chamada de Recôncavo da Guanabara. Sempre foi uma região onde o dinheiro circulou, primeiro com os engenhos de açúcar, depois com o café e, até esse século, com a laranja", ensina o curador da mostra e superintendente de Baixada da Secretaria Estadual de Cultura, Marcus Monteiro. "Os artistas que foram para Minas e deram origem ao barroco de lá passaram antes por aqui. É preciso lembrar também que, nessa época, o Rio era o principal porto do País."Essas obras, no entanto, estavam esquecidas dentro de igrejas ou em depósitos das nove cidades que formam a Baixada Fluminense e estão divididas em três dioceses: Petrópolis e Magé, Duque de Caxias e São João do Meriti e Nova Iguaçu, com Queimados, Nilópolis, etc. Monteiro recebeu total apoio dos bispos e padres de cada cidade, mas, em algumas delas, nem os responsáveis pela guarda das peças sabiam de sua importância. "Elas se encontravam em estados variáveis de conservação, algumas comidas por insetos ou cupins ou então repintadas sem muito critério", diz Monteiro.Mesmo assim, foram encontradas preciosidades, como a Nossa Senhora da Conceição datada de 1517, feita por um jesuíta que assina Palacoli, que desenhou também o símbolo da Companhia de Jesus, sua congregação. Há ainda um São Sebastião e uma Nossa Senhora do Rosário achadas em igrejas de Nova Iguaçu, com feições índias, e uma Nossa Senhora do Carmo, atribuída a Sebastião Toscano, que aparece no Santuário Mariano de 1723. Este livro, editado pelo Vaticano, relacionava as imagens que mereciam a devoção dos católicos.Tijolos - As esculturas fluminenses têm tamanhos variados, de 20 centímetros a 1,5 metro e usam apenas dois materiais: madeira e barro cozido. "O Mosteiro de São Bento e vários imóveis dos séculos 17 e 18 do Rio foram construídos com tijolos desse barro e até hoje há muitas olarias na Baixada Fluminense", diz Monteiro. "Como boa parte das peças precisam de restauro urgente, vamos montar uma oficina na própria Casa França-Brasil para o público conhecer melhor a arte que fazemos e a forma de tratá-la."A preocupação procede. Monteiro reconhece que parte do barroco brasileiro perdeu-se ou foi para coleções particulares nos anos 60, logo após o Concílio Vaticano II, que centrou a devoção católica em Jesus Cristo. "Com isso, os santos foram levados para depósitos e os padres, muitas vezes por necessidade de recursos para manter as igrejas, as vendiam", lembra Monteiro. A recuperação desse acervo teve a consultoria técnica da historiadora de arte Cristina Ávila, da Universidade Federal de Minas Gerais, que cuidou também do catálogo das peças. "Assim preservamos as peças, pois os colecionadores poderão consultar o catálogo quando lhes forem oferecidos objetos barrocos."Para a secretária de Cultura do Estado, Helena Severo, a descoberta e divulgação desse acervo, resultado de uma pesquisa de três meses especialmente nas igrejas da zona rural, muda a imagem da região. "Quando se fala em Baixada, pensa-se em violência e exclusão social. Pouca gente sabe dessa história tão rica e esta mostra vai resgatá-la", comenta. "Depois do Rio, vamos levar a exposição aos municípios de origem das peças e, se possível, viajar pelo País com elas. Em algumas cidades, as prefeituras e as dioceses já pensam em criar seus próprios museus de arte sacra."

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