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Mostra promove diálogo de Beuys e Nelson Leirner com seus alunos

Exposição já passou por Santiago, Buenos Aires, Cidade do México, Monterrey e Bogotá

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2011 | 00h00

A arte é o enigma, o ser humano, a solução. Além dessa frase, o artista alemão Joseph Beuys (1921-1986), considerado um dos principais criadores do século 20, afirmou que ser professor era sua obra de arte mais importante, mas seus ensinamentos estavam mais relacionados a estimular nos alunos o pensamento e a ação - e não apenas a criação de objetos. Entre 1961 e 1972, Beuys foi o polêmico professor da Academia de Belas Artes de Düsseldorf, mas sua postura e obra inspiraram artistas para além das salas de aula. "Beuys foi o professor de todos, ele mudou as regras do jogo", afirmou o também mestre e criador Nelson Leirner, como conta a curadora alemã Liz Christensen.

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Sendo assim, a mostra Beuys e Bem Além - Ensinar como Arte, que será inaugurada nesta segunda-feira, 12, no Instituto Tomie Ohtake, coloca, em uma sala, a obra do alemão e a de seis de seus alunos - Jörg Immendorff, Lothar Baumgarten, Imi Knoebel, Blinky Palermo, Katharina Sieverding e Norbert Tadeuz - e, na outra sala, a relação de Nelson Leirner com os criadores Dora Longo Bahia, Leda Catunda, Iran do Espírito Santo, Caetano de Almeida, Edgard de Souza, Laura Vinci e Sergio Romagnolo, que participaram de suas aulas na Faap. Na exposição, assim, faz-se um diálogo livre entre artistas que desenvolveram caminhos muito próprios ao longo de suas carreiras e que tiveram, na verdade, conexão baseada em diálogo intenso de ideias, conceitos e tomada de atitude.

Beuys e Bem Além já passou por Santiago, Buenos Aires, Cidade do México, Monterrey e Bogotá. Em cada país, a exposição ganhou um "anexo" diferente, com curadores convidados (no Brasil, Agnaldo Farias e Paulo Miyada) a criar segmentos a partir de um artista-professor do local. Já as obras de Joseph Beuys e de seus alunos, todas sobre papel, são as pertencentes à grande coleção do Deutsche Bank . "O acervo é focado em trabalhos sobre papel porque eles tratam de processos e ideias dos artistas, o que nos interessa", diz Liz, uma das curadoras da coleção.

Beuys, assim, um dos principais nomes da arte alemã, é destaque no acervo do banco. Considerado um idealista (criador da ideia de "escultura social"), um dos artistas mais experimentais e conceituais do pós-guerra com suas esculturas, performances (ele integrou o grupo Fluxus) e o engajamento político pela liberdade, Joseph Beuys foi "quase como um xamã", afirma Liz Christensen.

Segundo a curadora, ele impulsiou jovens criadores, "que nasceram com o legado do nazismo e da guerra", a falar " de coisas difíceis". Em 1965, Beuys realizou a performance Como Explicar Desenhos a Uma Lebre Morta - como diz o título, vagou numa galeria carregando o animal morto -, mas nas suas salas de aula (na do semestre de 71/72, havia 233 estudantes, conta Petra Richter em texto do catálogo da mostra), os ensinamentos do artista-professor eram sobre "ações intensas e intenções", sobre "desafiar pessoas de maneiras diferentes", diz Liz.

Na mostra, assim, as obras de Beuys e dos seis alunos/artistas - criadas, principalmente, entre os anos 1970 e 90 - são muito diversificadas e o elo entre elas se dá, na maneira mais visível e sutil, pela presença da cor vermelho-terrosa que aparece no símbolo da cruz, uma assinatura do mestre alemão, e que está pontuada nas peças dos outros criadores. "A cruz de Beuys é religiosa, no sentido da ideia de salvação, mas também simboliza a simples interseção", diz Liz.

Katharina Sieverding, por exemplo, destrinchou, à revelia de Beuys, a fotografia, gênero que o artista considerava ser uma linguagem de apenas documentação. Já Lothar Baumgarten (que terá instalação a ser inaugurada em outubro no Instituto Inhotim), está representado por obras que realizou na Amazônia na década de 1970, sobre índios brasileiros, a partir de seu interesse por questões linguísticas. Já Palermo, Knoebel, Tadeuz e Immendorff (cuja obra revela uma relação de profunda admiração por Beuys) participam com pinturas, desenhos e gravuras.

BEUYS E BEM ALÉM - ENSINAR COM ARTE - Instituto Tomie Ohtake. Av. Brig. Faria Lima, 201, tel. 2245-1900. 11h/20h (fecha 2ª). Grátis. Até 30/10. Abertura hoje, 20h, para convidados

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