Mostra pede calma para ser apreciada

Para afastar um pouco o marasmo quetomou conta do circuito de exposições neste frio mês de julho,com poucas estréias merecedoras de destaque, a Dan Galeria exibea partir de amanhã o trabalho do uruguaio Marco Maggi, que, comseus minuciosos desenhos - feitos sobre os mais estranhossuportes e com uma plasticidade absolutamente sedutora -,evidencia uma série de contradições do nosso mundo moderno.Essas obras, que se situam entre a bidimensionalidade ea tridimensionalidade, obrigam o espectador a pensar no que temdiante dos olhos, a testar suas emoções diante dessas estranhaspaisagens, que podem ser vistas aéreas de gigantescasmegalópoles, criações de um irreconhecível povo primitivo oumeros circuitos internos de um computador, a compartilhar com oartista a vagareza e paciência necessária para realizar essastarefas.A obra de Maggi, que há poucos meses era uma das grandesatrações da 25.ª Bienal de São Paulo (e um pouco antes da 3.ªBienal do Mercosul), mantém um interessante vínculo com ahistória do autor, com o ambiente cultural em que se formou. Éinevitável lembrar do construtivismo uruguaio ao ver os desenhosque espalha nos papéis alumínio, nas molduras de acrílico ou naschapas de cerâmica. Como o mestre Torres García. Ele parececriar um alfabeto visual próprio. Mas não reconhece em sua obraesse diálogo nem a tentativa de cunhar uma arte de origemlatino-americana.Aliás, desde 1996, Maggi vive nos Estados Unidos. Elemudou-se para Nova York para fazer um mestrado em gravura,retomando dessa forma sua relação com as artes. Garoto, com 14anos, ele havia feito uma exposição numa galeria central deBuenos Aires, mas as circunstâncias - principalmente aslimitações políticas de seu país - acabaram levando-o a seguircarreira no jornalismo e no segmento de construção civil atérecentemente. Hoje, ele vive numa cidadezinha nos arredores deNova York, de onde procura dar voz a essa arte lenta, reflexiva,que encontra não apenas em seu trabalho.Atualmente ele prepara com sua galeria, a "123 Watts",uma exposição coletiva que reunirá obras de vários artistas quetêm essa preocupação em se contrapor à velocidade do mundocontemporâneo. Neste caso, a lentidão refere-se não apenas àpaciência de usufruir lentamente a obra de arte, mas ao laborvagaroso, à dedicação exclusiva que acaba tornando-se parteintegrante do trabalho. Para realizar seus desenhos, Maggitrabalha compulsivamente, durante 14 horas por dia, poisprimeiro é possível "esquentar" o pulso para conseguirproduzir esse universo tão rico e autômato de imagens.Poderia se fazer um paralelo entre essa iniciativa e omovimento de "slow food", liderado pelos italianos como umamaneira de contrapor-se à ligeireza insípida dos fast foods. Masno caso de Maggi essa intenção vai mais longe: há em seutrabalho uma ironia crítica que só pode ser entendida por quemse detém para escutá-lo denunciando, aos sussurros, o quãoincompreensível é nosso mundo. "Não temos capacidade de ler omundo em que vivemos; nem as palavras nomeiam nem os meios decomunicação têm capacidade de difundir o que acontece nestemundo", explicou o artista, que veio ao País para a montagem desua obra.Apesar de a exposição ser composta por vários trabalhosde diferentes famílias, ele considera o conjunto como uma grandeinstalação. Há alguns de teor mais clássico, em que o aspectoformal se sobrepõe ao resto, como os belos desenhos em grafitefeitos sobre placas de cerâmica negra ou quase branca. Há obrasdesafiadoras, como a grande montagem que ocupa o centro dagaleria feita de ramas de papel sulfite e que se assemelha a umagrande maquete, composta por figuras que saltam do plano dopapel, ganham o espaço com uma delicadeza e uma forçaimpressionantes.Se a maioria dos trabalhos remetem ao tema das paisagens, há também uma pequena obra cujo tema é outro gênero clássico: anatureza-morta. São maçãs, cujas cascas foram talhadas porMaggi. O processo é curioso já que faz com que o fruto seque semapodrecer (apenas se a lâmina não atingir a polpa, cortandoapenas a casca, com muita delicadeza) e mantenha na peleencarquilhada os desenhos feitos pelo artista. São como fósseisque representam a região de New Platz, onde o artista vive. Eque curiosamente perderam sua forma, mas não seu odor. Paramostrar como se dá o processo, Maggi realizará outro trabalhodesse tipo para a mostra paulistana, mas, em vez de usar asmaçãs machintosh que cercam seu povoado, ele lançará mão de umamaçã brasileira.Mas são nas interferências que utilizam o papel alumíniocomo suporte que se vê de maneira mais clara o carátereminentemente crítico da obra de Maggi. Tudo começou como umabrincadeira com os princípios da gravura. Como muitos gravadores, Maggi confessa um interesse especial sobre o suporte - mais doque sobre as cópias geradas no processo de gravação. E viunesses trabalhos, intitulados Soft Plates, a possibilidadede criar matrizes que jamais poderiam ser usadas para aimpressão. Além disso, pelo caráter descartável e pobre domaterial, ele também conseguiu ironizar o suposto - e falso -caráter democratizante da gravura na sociedade capitalista.Fora de foco - Quando colocadas nas molduras de slide -e compostas em grandes conjuntos, também de caráter construtivo- esses quadrados formam um grande painel de imagensfragmentadas. A idéia de transparência e projeção, normalmenteassociada ao slide, é totalmente anulada. Como diz o autor, seusBlind Slides jogam com a idéia de blindagem (violência) e tambéma questão da cegueira - qualquer relação com o código Braile nãoé mera coincidência. Cegueira essa que não é apenas visual. Afalta de foco denunciada por Maggi, o movimento pendular que elepropõe entre o mínimo e o gigantesco, entre o passado remoto e ofuturo automatizado, nada mais é do que uma forma de usar a artepara fazer os outros pensarem, modificarem suas formas deencarar e de sentir o mundo. Mesmo que de maneira sutil oubem-humorada. Não à toa uma série de trabalhos intitula-sePreColumbian & PostClintonian. "A crítica ácida nós jáfizemos. Agora temos de tentar outros caminhos", acrescentaele.E essa operação crítica só faz sentido quando o públicoestá disposto a doar o que mais faz falta em nossos dias: seutempo. "Meu trabalho só funciona quando a pessoa cola o vidrono nariz ou se agacha para descobrir os trabalhos ao nível dosolo", explica. Fenômeno, aliás, que chamava tanta atençãoquanto o próprio trabalho na sala da representação uruguaia daBienal.Marco Maggi. De segunda a sexta, das 10 às 19 horas; sábado, das10 às 13 horas. Dan Galeria. Rua Estados Unidos, 1.638, tel.(11) 3083-4600. Até 25/8. Abertura hoje às 10 horas.

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