Mostra no Rio traz toda a criação de Di Cavalcanti

Di Cavalcanti - Um Perfeito Carioca inaugura nesta quinta-feira a galeria do centro cultural da Caixa Econômica Federal (CEF) no centro do Rio. São 110 quadros e desenhos, espalhados em três enormes salões na sobreloja da sede do banco, ilustrados com textos do pintor, para dar uma nova idéia de sua obra. Há paisagens, festa religiosas e populares, cenas das ruas cariocas, gafieiras e bares e, é claro, as mulatas às quais seu nome ficou ligado. "Di Cavalcanti é um dos artistas mais valorizados no mercado, mas é pouco conhecido", comenta a curadora, Denise Mattar. "Por isso, esta exposição traz temas que pouca gente sabe que ele pintou e abrange todas as suas fases, do início, antes dos anos 20, até seus últimos quadros, nos anos 70."É o caso das favelas, a primeira de 1919 e a mais recente, de 1974. Em ordem cronológica, evidenciam a evolução do artista e a da cidade, mostrando uma paisagem que não existe mais, embora esteja longe das imagens de cartão-postal do Rio divulgadas até então. Di Cavalcanti sempre pintou o que ele chamava de "banal maravilhoso", ou seja, o popular, o rústico, descobrindo uma beleza onde seus contemporâneos viam apenas o comum. "O mesmo acontece com as mulheres que ele pintou. No início são ingênuas, tornam-se românticas nos anos 40 e, nos 60, ficam sensuais, mas nunca vulgares", ressalta Denise. "Ele fez retratos, mas poucos de encomenda, como aconteceu com Cândido Portinari."Com o paulista de Brodowski, Di (como era chamado pelos amigos) é o artista mais conhecido do Brasil, mas ao contrário dele, o carioca teve poucos quadros divulgados. Este é, segundo o diretor do centro cultural da CEF, Marcos Flora, um dos motivos de tê-lo na primeira grande exposição do lugar. "Sua obra é caracteristicamente brasileira, marca que queremos imprimir aqui. Ele dialoga igualmente com tradição e modernidade, outro ponto importante de nossa programação. E, além disso tudo, há muito tempo não há uma exposição de Di Cavalcanti no Rio, quase uma década", enumera Flora, lembrando que a última mostra foi em 1997, quando se comemorou um século de seu nascimento.Denise Mattar foi a curadora e a filha do pintor, Elizabeth Di Cavalcanti, chamou-a para a mostra atual. Há obras pouco vistas, como a série Os Fantoches da Meia-Noite, desenhos de personagens da boêmios da Lapa carioca, em preto e branco que viraram livro de arte, com textos de Ribeiro Couto e edição de Monteiro Lobato. "Não houve reedição e os poucos exemplares estão na Biblioteca Nacional, de onde saem, ou com colecionadores que raramente emprestam", conta Denise. Há ainda a série de óleos sobre tela, Natal, São João, Independência e Inconfidência, feitas para a CEF ilustrar bilhetes de loteria. "Di foi um dos principais modernistas, mas, ao contrário dos outros, sempre se manteve com seu trabalho. E tinha uma intimidade com o povo brasileiro que pôde retratá-lo e a sua paisagem, de dentro, não como Tarsila do Amaral ou Anita Malfatti, como alguém que olha de fora."Sua convivência com o cotidiano carioca foi destino e opção. Ele nasceu na Lapa e foi criado em São Cristóvão (então bairro aristocrático) e cedo tornou-se ilustrador. Com 20 anos, já era pintor requisitado e, aos 25, juntou-se a artistas de São Paulo na Semana de Arte Moderna, da qual sempre reivindicou a paternidade. "Ao contrário da pintura da época, ele gostava de retratar o povo, as gafieiras, os pescadores das praias cariocas e as mulheres", lembra Denise. "Talvez por isso ele tenha sido criticado, embora hoje seja valorizadíssimo. Acredita-se que ele tenha umas 5 mil obras, mas a contagem começou agora. No fim da vida e depois, como seus quadros eram muito procurados, apareceram falsificações, ainda bem que de gente sem competência para copiá-lo."Reunir esse acervo foi uma empreitada, pois Denise teve dois meses para contatar 40 colecionadores privados (Domingos Giobbi, Yara Baumgart, Bruno Krasilchik, Sérgio e Hecilda Fadel e filhos de Roberto Marinho, que colecionou Di desde os anos 40) e públicos (Fundação Itaú Cultural, Universidade de São Paulo e os museus Nacional de Belas Artes e de Arte Moderna, no Rio). "Eles entenderam que Di Cavalcanti é um artista fundamental para se compreender a arte que se produz hoje no País e também nossa própria história", adianta a curadora. "Inaugurar este espaço me emocionou e, mais ainda, quando a filha de Di, Elizabeth, contou que, antes da CEF, aqui funcionou o Liceu de Artes e Ofícios, local de sua primeira exposição. Ou seja, quando a Caixa abre sua galeria de arte com Di Cavalcanti faz também uma declaração de amor ao Rio."

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