Mostra no CCBB questiona a Semana de 22

A exposição Arte Brasileira naColeção Fadel, que será inaugurada amanhã no CentroCultural Banco do Brasil, em São Paulo, confirma a idéia tantasvezes repetida de que são as coleções particulares que abrigam omelhor da produção brasileira. Sem verbas para incrementar seusacervos, cabe aos museus organizar de vez em quando exposiçõestemporárias de importante caráter didático e contar com abenevolente contribuição dos colecionadores. Ao percorrer osquatro andares do prédio do CCBB - cujas modestas dimensõesainda comprometem um pouco a continuidade da exposição, apesardas vitórias obtidas com pequenos arranjos de cenografia -, ovisitante vai reencontrar deslumbrado uma seleção de encher osolhos: são cerca de 200 trabalhos que percorrem mais de umséculo de arte.A seleção contempla um rol bastante representativo daarte brasileira desde o final dos oitocentos. Há telasmaravilhosas do século retrasado, como uma noite enluarada sobrea praia de Santa Luzia, que não mais existe, pintada porCastagneto, que tem um papel central no núcleo de cenas noturnas- no sentido físico, social ou psicológico do termo - montado nocofre do subsolo, que é um dos momentos altos do evento. E osnovecentos estão representados até a década de 70, com umprojeto cenográfico de Hélio Oiticica para A CangaceiraEletrônica, filme não realizado de Antonio Carlos Fontoura.Não há uma ordem cronológica ou temática, mas pequenos núcleospoéticos ou investigativos.No entanto, apesar da diversidade e da qualidade dasobras selecionadas, a importância dessa exposição vai além dosimples desejo de tornar públicas as pérolas reunidas em uma dasmais importantes coleções privadas do País e que reúne cerca de1,6 mil obras de arte. O desejo de Paulo Herkenhoff aodebruçar-se sobre esse acervo foi, a partir dele, jogar luzsobre importantes questões relacionadas à história artística egeopolítica do Brasil. Não à toa a mostra é aberta em grandeestilo por dois mestres mineiros, Maria Martins e Guignard.A primeira das teses defendidas pelo curador é a de quea arte moderna brasileira teve início bem antes da tão propaladaSemana de 22. Basta o núcleo reunindo obras de artistas doséculo 19 mas desligados da academia, como Eliseu Visconti,Timóteo da Costa e Belmiro de Almeida, para mostrar como asexperimentações de cunho impressionista ou expressionista já sefaziam presentes por essas terras. Basta citar Maternidade emCírculos, pintado em 1908 por Almeida, na qual está retratadauma Madona com seu filho por meio de círculos superpostos, cujaradicalidade é tamanha que a obra foi escolhida para o conviteda exposição. "Não há consciência de superfície na artebrasileira até os anos 40 comparável a essa", afirmaHerkenhoff.Mas esse desejo de jogar definitivamente por terra essafalsa idéia de primazia dos modernistas da Semana, que aliás jáconta com ampla concordância de historiadores e críticos, éapenas uma das teses polêmicas apresentadas por Herkenhoff pormeio dessa mostra.O ponto nevrálgico de sua teoria - já esboçado naexposição Trajetória da Luz na Arte Brasileira, realizadaano passado no Itaú Cultural - é a crítica virulenta a umaarticulação de poder econômico e político que deturpa a históriada arte brasileira e coloca São Paulo como motor da modernidadeno País. "22 é muito mais um mito do que resultado de umprocesso concreto e a história da arte brasileira foi muitoempobrecida ao se negar esse passado", afirma ele. E cita comoexemplo de que a modernidade se fez muito mais viva, intensa eprecoce no Rio o fato de que enquanto São Paulo jamaisreconheceu a modernidade da música popular, o Rio já geravafiguras essenciais como Pixinguinha e Ernesto de Nazaré.Se ficarmos no campo apenas da pintura, uma arte muitomais elitista do que a música, também há exemplos de rupturasbem radicais entre os que acabaram equivocadamente chamados de"acadêmicos", como Castagneto. "Não se pode negar que era umapintura que rompia os cânones, mas até hoje se faz um silênciopermanente sobre esses índices."A reação virulenta que se segue às afirmações de que ahegemonia moderna paulista é falsamente construída emdecorrência de um projeto de poder - ele chegou a ser apontadocomo alguém que cuspiu no prato que comeu porque usou a idéia deantropofagia como tema da 24.ª Bienal de São Paulo - não pareceincomodá-lo. Ao contrário: a irritação parece servir diretamentea seu interesse de desmontar ficções, não importa se elas tenhamsido construídas em torno de figuras hoje inquestionáveis comoSergio Camargo, a quem chama de derivativo, e Oswald de Andrade.Ânimos exaltados à parte, o que é extremamente importante nessedebate é a atenção que ele desperta para a necessidade de serevisitar permanentemente o passado da arte brasileira - tendosempre em mente a importância dos laços econômicos e sociais -para que se possa compreender e construir melhor o presente.Arte Brasileira na Coleção Fadel. De terça a domingo,das 12 às 20 horas. Centro Cultural Banco do Brasil. Rua ÁlvaresPenteado, 112, São Paulo tel. 3113-3651. Até 12/1. Abertura hoje, às 11 horas. Patrocínio: Seguro Ouro Auto.

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