Mostra na Oca reúne peças raras de Coimbra

Os curadores da Universidade de Coimbra mostram como o ideário iluminista de traçar mapas de territórios conquistados mascarou uma visão utilitarista dos colonizadores

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

22 Janeiro 2014 | 19h37

Logo ao entrar na exposição Da Cartografia do Poder aos Itinerários do Saber, aberta a partir de sexta, 24, na Oca, o visitante vê a figura imponente de Luís Antonio de Sousa Botelho Mourão na tela que ocupa o centro da mostra. Conhecido por Morgado de Mateus, ele virou nome de rua em São Paulo, mas poucos conhecem a história do nobre português que foi governador da cidade por dez anos (de 1765 a 1775). Entre outros feitos, Mateus elevou vinte povoados à categoria de vilas, defendendo as fronteiras contra o Império espanhol. A exposição, no entanto, está longe de ser uma elegia ao heroísmo. Os curadores da Universidade de Coimbra mostram como o ideário iluminista de traçar mapas de territórios conquistados mascarou uma visão utilitarista dos colonizadores. E mais: como esses mapas, pretensamente rigorosos, estavam mais próximos da pintura, técnica da qual os portugueses nunca foram mestres, ao contrário dos espanhóis.

 

 

Criada para comemorar os dez anos do Museu Afro Brasil e o centenário da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, a mostra é, segundo seus curadores, Paulo Amaral e Catarina Pires, da instituição portuguesa, uma “metáfora do mundo”, em que o visitante pode traçar o próprio itinerário segundo seu gosto. Nela, ele poderá ver objetos curiosos como 32 tampas de panela da tribo Woyo, do Congo, esculpidas com figuras que substituíam o diálogo entre marido e mulher quando o casal brigava. Ou a escultura de um hermafrodita da tribo Dogon, do Mali, notável por seu conhecimento avançado, especialmente sobre o sistema estelar de Sirius.

As descobertas que o colonizador português fez na África e no Brasil levaram à Universidade de Coimbra peças como essas, além de documentos históricos como os mapas do engenheiro italiano Miguel Ciera no século 18, entre eles os dos povoados que Morgado de Mateus elevou à condição de vilas. Além dos mapas geográficos, interessavam aos curadores os mapas humanos, as cosmovisões pragmáticas que levaram à impressionante coleção de bustos reproduzida na foto maior desta página. Ladeada por imagens de detidos pela polícia, essa coleção conduz à sala vizinha onde se destaca um trabalho crítico de interpretação sobre a antropologia criminal do médico Cesare Lombroso, hoje uma ciência desacreditada.

A essa altura, o visitante já notou que as viagens científicas do colonizador português levavam mais a equívocos do que à construção do conhecimento. Os atlas humanos do colonizador são demonstrações de poder sobre o antípoda, seja ele o negro africano ou o desajustado social branco e pobre. “Um mapa é o território, dado de presente aos nobres, mas é sempre uma proposta singular de reinterpretação do mundo”, justifica o curador Paulo Amaral. Era preciso ousar mais para mostrar que o conhecimento, na visão do colonizador português, estava intimamente ligado a um ato de dominação. A curadoria, então, convidou artistas contemporâneos para dar a própria interpretação dessas descobertas.

Algumas são engraçadas, como a série da performática Orlan em que a francesa, hoje com 66 anos, aparece maquiada como uma figura pré-colombiana. Orlan, conhecida por suas operações plásticas filmadas como performances, em que assume a aparência de obras de arte, começou a construir a série de “auto-hibridizações” (a das máscaras primitivas) em 1994. Ela já foi uma índia americana e uma negra africana, como aparece na foto da galeria abaixo.

Entre os contemporâneos brasileiros convidados estão José Resende e Tunga. Entre os portugueses destaca-se o fotógrafo José Luís Neto, de 48 anos, que desenvolve um original trabalho de apropriação de imagens. No da mostra, ele reinterpreta as fotos de prisioneiros quando a Penitenciária de Lisboa resolveu abolir, em 1913, o uso de capuzes que confinavam meus usuários em seus próprios corpos. Metáfora maior sobre a incomunicabilidade, impossível.

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