Mostra na França reúne os principais nomes do Expressionismo

Mostra na França reúne os principais nomes do Expressionismo

Pinacothèque de Paris recebe as obras-primas da vanguarda alemã

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de S.Paulo,

08 de janeiro de 2012 | 07h00

Embora seja um termo inventado na França no começo do século passado, pelo pintor Julien-Auguste Hervé, o expressionismo não deu frutos na França, que passou ao largo do movimento alemão, representado por artistas como Emil Nolde, Ernst Ludwig Kirchner e August Macke. Um século após a criação dos dois principais grupos expressionistas da Alemanha - o Die Brücke (A Ponte) e Der Blaue Reiter (O Cavaleiro Azul) -, a França recebe na Pinacothèque de Paris as obras-primas do movimento, inclusive a primeira tela abstrata da história, assinada em 1911pelo russo Kandinski, integrante do último grupo quando morava em Munique.

A exposição Expressionismus & Expressionismi já seria importante por abrigar artistas de dois grupos distintos. O principal mérito da mostra é justamente o de revelar as diferenças entre o Die Brücke, criado em Dresden, em 1905, e o Die Brücke, fundado em 1911, em Munique. Enquanto os artistas do primeiro retrataram o tormento da condição existencial com formas e cores agressivas, os do Der Blaue Reiter seguiram um caminho suave, sem estridência cromática, dentro de uma atmosfera apaziguadora, resultante da espiritualidade de seus integrantes, liderados por Kandinski.

A exposição francesa no museu dirigido por Marc Restellini é exemplo de uma curadoria sensível às diferenças que marcam as duas faces do expressionismo alemão, movimento que começou na pintura e se expandiu para outras áreas da criação artística (cinema, teatro, ópera). Restellini diz que o confronto entre os dois grupos quer destacar aspectos que marcam o Die Brücke como associação mais empenhada em retratar o mal-estar da época e o Der Blaue Reiter como um conjunto de artistas mais intelectualizados e espiritualizados - além de Kandinski, outro teórico de arte e pintor, o suíço Paul Klee, fazia parte do grupo.

O encontro de Kandinski e Klee, em 1911, foi não só o começo de uma bela amizade como de um diálogo fértil que resultou numa pesquisa teórica sobre as cores e as diferenças entre o expressionismo e o impressionismo. Klee escreveu, num livro de 1912, que o expressionismo buscava reinventar a impressão primeira, revelando o interior do artista e sua relação com o universo. Em outras palavras, o pintor suíço defendia que os expressionistas não queriam ser fiéis à percepção do mundo exterior. A exaltação do estado da alma, a expressão de emoções pessoais e até uma dose aceitável de loucura nos expressionistas eram respostas à vã tentativa impressionista de captar a instabilidade da luz e da natureza.

A exposição francesa destaca os expoentes dos dois grupos e emprega uma estratégia didática para mostrar como o Die Brücke adotou uma frase de Nietzsche (de Assim Falou Zaratustra) para construir sua "ponte"artística - a passagem da tradição para o desconhecido - e como o Der Blaue Reiter fez da cor azul e de um cavaleiro símbolos do que seria a passagem (espiritual) do naturalismo para a abstração. Do primeiro grupo destacam-se as obras de Kirchner, um dos primeiros expressionistas a buscar nas formas angulares da escultura primitiva africana inspiração para retratar o homem moderno, atormentado pelo pesadelo da guerra - ele lutou na 1.ª Guerra Mundial e, deprimido, foi parar num sanatório suíço. Outros pintores de seu grupo privilegiados na mostra são Max Pechstein, influenciado pelos fauvistas, e Nolde, marcado pelo ideal nórdico de Munch.

Entre os integrantes do Der Blaue Reiter que têm suas obras em relevo estão Franz Marc, August Macke e Mikhail Larionov - além de ótimas pintoras como Gabriele Münter (companheira de Kandinski) e Marianne Werefkin (mulher de Alexej von Jawlenski). Marc era fascinado por animais, especialmente pelo cavalo, além de ser um crítico de arte influente em sua época. Foi, aliás, como crítico que conheceu Kandinski e a tela que batizaria o movimento, uma pintura feita em 1903 pelo russo. Também Marc fez seu cavalo azul numa delicada paisagem de 1912, típica das pinturas do Der Blaue Reiter.

Ao contrário do Die Brücke, cujos mandamentos foram fixados numa xilogravura de Kirchner, os integrantes do Der Blaue Reiter eram avessos a regras rígidas e ao aspecto grotesco das figuras dos pintores e gravadores do primeiro grupo. O expressionismo foi profundamente marcado pelos traços secos e rígidos das gravuras de Kirchner e Heckel, que refletiam a face pessimista de seres à beira de um colapso mundial - e, nesse aspecto, ele só podia mesmo ter nascido numa Alemanha militarizada, herdeira do imperialismo de Guilherme II. O visitante da exposição da Pinacothèque de Paris, pode, no entanto, escolher entre a violência e a expressão metafísica dos pintores do grupo Der Blaue Reiter. É o que se chama comumente de caminho para o paraíso.

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