Mostra na ABL comemora centenário de José Lins do Rego

O centenário do escritor José Lins do Rego será comemorado com antecedência pela Academia Brasileira de Letras, da qual foi membro. A data de seus cem anos é 3 de junho, mas nessa terça-feira será aberta na instituição uma exposição com ilustrações de sua obra, edições e manuscritos de seus livros e muitas fotos de seu cotidiano, da sua convivência com outros artistas modernistas como ele. A exposição é complemento de um ciclo de palestras sobre sua vida e obra, que se estenderá até 15 de maio, como a mostra.Rego nasceu na Paraíba, em um engenho de cana, e suas histórias se passam nesse ambiente. Sua família encontrava-se no ápice da aristocracia rural. Uma lenda não comprovada fala de um tio materno que, com problemas mentais, foi à Europa tratar-se com o médico e fundador da psicanálise Sigmund Freud. Juntando essa bagagem cultural e a convivência com empregados e agregados, Rego criou histórias repletas de coronéis do interior, peões, capatazes ou autoridades corrompidas e cangaceiros.A forma de retratá-los foi burilada durante o curso de Direito que fez em Recife, no início dos anos 20, época em que se tornou amigo de Gilberto Freire, José Américo de Almeida e outros modernistas, fundadores da literatura regional brasileira da qual Lins do Rego é um expoente. Íntimo do linguajar popular reproduziu a fala dos matutos como se o leitor pudesse ouvi-los.A literatura sempre foi uma segunda profissão para o escritor. Pouco depois de formado, partiu para Minas Gerais, Alagoas e depois Rio de Janeiro, sempre como funcionário público. Só notou que seus livros tinham público em meados da década de 30, quando José Olympio fez uma edição de 3 mil exemplares, gigantesca, para a época, de Bangüê, que era seu segundo romance.Assim como o primeiro, Menino de Engenho, de 1932, fora lançado por uma editora pequena, com pouca repercussão. "José Lins quis conhecer aquele editor ousado que, na opinião dele, supervalorizava sua obra", lembra o responsável pelo acervo da Editora José Olympio, Sebastião Macieira. "Daí nasceu uma amizade para toda a vida; Rego acompanhava a edição da entrega dos manuscritos ao livro impresso."A organizadora da exposição, Stela Kaz, optou por falar de sua obra, que se confunde com sua biografia. "Ao contrário de outros autores, ele viveu, de alguma forma, tudo que escreveu; por isso, quis mostrar como essa obra chegou ao público", adianta ela. Stela conseguiu junto à Editora José Olympio, responsável pelo lançamento da maioria de seus livros, manuscritos, edições estrangeiras de suas obras e boa parte dos originais das capas, desenhados por artistas como Cândido Portinari, Luiz Jardim e Santa Rosa. Ela conseguiu as capas de Bangüê - uma de Santa Rosa e outra de Cícero Dias - e as ilustrações de Luiz Jardim e Cândido Portinari para diferentes edições Menino de Engenho, seu livro mais conhecido, além de ilustrações de Cangaceiros feitas por Portinari."Este livro saiu em 30 fascículos, em 1952, na revista O Cruzeiro, e os originais foram conservados e cedidos pela família do pintor", diz Stela. "Não foi possível reproduzir todos porque são quadros imensos e o espaço é reduzido; mas consegui fotos dele com alguns desses artistas e outros escritores modernistas." Para reproduzir o ambiente em que os personagens de José Lins do Rego vivem, as ampliações das capas e ilustrações dos livros foram agrupadas e organizadas em painéis que retratam os cenários das histórias.Há engenhos nordestinos, na visão de Santa Rosa e Portinari, os cômodos da casa grande desenhados por Luiz Jardim e retratos dos personagens, que apareciam na obra de José Lins do Rego perfeitamente delineados. A exposição mostra também a paixão pelo futebol que o escritor sempre teve. Ele era flamenguista doente, paixão só comparada, na literatura brasileira, à que Nelson Rodrigues nutria pelo rival Fluminense.Foi diretor do clube e da antiga Confederação Brasileira de Desportos e cronista do Jornal dos Sports, sempre num estilo apaixonado. O futebol, no entanto, era um dos muitos assuntos abordados em crônicas que escreveu desde a adolescência até o fim da vida, em jornais e revistas das cidades onde morou.A obra de José Lins do Rego também teve adaptações bem sucedidas. Nos anos 90, o romance Riacho Doce virou minissérie de sucesso da Rede Globo e filme intitulado Beladona, de Fábio Barreto. Menino de Engenho foi marco do Cinema Novo, nos anos 60, dirigido por Walter Lima Júnior, e também virou especial na Rede Globo, mas com repercussão menor.Há ainda filmes feitos a partir dos romances Pureza (de Chianca Garcia, em 1940) e Fogo Morto (curta de Mário Carneiro, em 1969), mas não será possível exibi-los devido ao mau estado das cópias. Em compensação, a mostra terá o documentário produzido pela filha do escritor, Elizabeth Lins do Rego, em 1969, dirigido por Valério Andrade."Consegui também uma versão de Menino de Engenho em quadrinhos, desenhada por André Le Blanc e lançada pela Editora Brasil América, nos anos 60; essa edição é parte de uma coleção de clássicos da literatura brasileira, hoje item de colecionador", conta Stela. "Para reunir esse material, pesquisei junto a colecionadores e à família de José Lins do Rego, além de instituições, como a Fundação Casa de Ruy Barbosa e o Projeto Cândido Portinari, que preservam nossos acervos culturais."Centenário de José Lins do Rego - Palestras e exposição na Academia Brasileira de Letras - Avenida Presidente Wilson, 203, centro do Rio.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.