Mostra leva a NY o Brasil "de corpo e alma"

Brazil: Body and Soul, exposição que tem como centro os períodos barroco e moderno das artes brasilerias e pretende revelar o Brasil "de corpo e alma", como anuncia seu título em inglês, será aberta ao público na sexta-feira, no Guggenheim Museum de Nova York, onde deve permanecer até 27 de janeiro. A mostra ocupa todo o museu. Teve sua inauguração adiada três vezes e correu o risco de não exibir a principal peça - o altar-mor do Mosteiro de São Bento de Olinda - entre as cerca de 350 obras que a compõem.A maior parte delas é barroca, começando pelo altar pernambucano que se ergue da rotunda na entrada do museu até quase 14 metros de altura. Na instalação criada pelo arquiteto francês Jean Nouvel, todas as paredes internas de cinco dos sete andares do Guggenheim foram pintadas de preto para realçar a presença imponente do altar. Esculpido em cedro e banhado a ouro, ele foi construído entre 1783 e 1786 e pesa cerca de 13 toneladas."Nunca houve uma exposição brasileira nos Estados Unidos que chegasse perto do tamanho e da extensão dessa", diz Edward Sullivan, professor de história da arte e diretor do Departamento de Belas-Artes da New York University. Coordenador da curadoria da mostra, formada por uma equipe binacional, Sullivan define Brazil: Body and Soul como "um evento histórico para o público americano".A intenção da curadoria é "transmitir o espírito das tradições visuais do Brasil", segundo Sullivan. Adiantando-se a eventuais críticas porque Body and Soul não representa toda a arte brasileira, ele argumenta que não houve a pretensão de criar tal panorama nem fazer da exposição nova-iorquina uma versão reduzida da retrospectiva apresentada pela Mostra do Redescobrimento, no ano passado, em São Paulo."Quisemos ampliar as categorias tradicionais investigando os componentes históricos dos séculos 17 e 18 para incluir o legado dos povos indígenas, a visão européia e, especialmente, a cultura visual negra", explica o curador. Ele mesmo acha que muitos aspectos do desenvolvimento cultural brasileiro foram omitidos. A lacuna mais óbvia é a da arte do século 19, quando os centros metropolitanos registraram uma intensa europeização que perdurou até o começo do século 20. A história da arte brasileira é revista de forma mais abrangente no catálogo de quase 700 páginas que acompanha Brazil: Body and Soul.Índios e modernos - Para relacionar tradições de períodos diferentes, as obras não são apresentadas na exposição numa convenção estritamente cronológica. Na primeira seção, quadros com figuras de índios pintados pelo holandês Frans Post no século 17, algumas das primeiras representações do Brasil feitas por europeus, estão próximos de objetos criados por tupinambás e tapirapés. Mais adiante, formam-se diálogos entre esculturas barrocas de madeira e obras do escultor baiano Agnaldo Manoel dos Santos (1926-1962) e o trabalho do contemporâneo Ernesto Neto faz contraponto com criações dos anos 60 de Lígia Clark e Hélio Oiticica.O barroco, que sobreviveu durante o século 19 sobretudo nas províncias brasileiras, é o estilo visto em maior proporção na mostra, com muitas obras pertencentes a ordens eclesiásticas e compostas por várias peças. "A escultura barroca brasileira tem um forte apelo aos sentimentos, uma característica exemplificada pelo trabalho de Francisco Antônio Lisboa, o Aleijadinho (1738-1814), que pode ser percebida mesmo no contexto de uma exposição em museu", nota Sullivan.Para mostrar o que é chamada de "fase heróica" do modernismo brasileiro, a curadoria traça as mudanças estéticas e sociais ocorridas a partir da Semana de 22 até meados do século 20. Antropofagia, a monumental tela pintada em 1929 por Tarsila do Amaral (1886-1973), "resume não só o período antropofágico da pintora como uma atitude filosófica que define os objetivos daquela fase de modernização do Brasil", destaca Sullivan no ensaio que escreveu para o catálogo da exposição. No realismo social que Cândido Portinari (1903-1962) expressa em telas como Café, de 1935, "os trabalhadores tornam-se símbolo das dificuldades econômicas", analisa o curador.Representado por uma seleção de suas últimas telas, Alfredo Volpi (1896-1988) é visto como um precursor das mudanças registradas na pintura brasileira no início dos anos 50. Obras tridimensionais de concretistas como Franz Weissmann e Mary Vieira (1927-2001) marcam o engajamento da arte produzida no Brasil com as tendências internacionais a partir da segunda metade do século passado. Trepantes e Bichos, de Lygia Clark (1920-1988), e Parangolés, de Hélio Oiticica (1937-1980) são as principais referências do neoconcretismo.Variedade e riqueza - Pelos dois andares superiores do museu, onde as paredes são brancas, avança a profusão de linguagens artísticas do Brasil contemporâneo, trazendo desde imagens totêmicas e religiosas de Rubem Valentim (1922-1991) e Ronaldo Rêgo, bordados de Arthur Bispo do Rosário (1911-1989), esculturas de Sérgio Camargo e Tunga, a fotografias de Vik Muniz. "A arte brasileira da segunda metade do século 20 apresenta uma crescente e intrincada série de padrões múltiplos que, vistos juntos, formam uma narrativa visual muito mais profunda do que se possa extrair da maioria dos estudos já feitos sobre ela", nota Edward Sullivan.Brazil: Body and Soul tem uma seleção limitada de obras de artistas vivos. "Não escolhemos trabalhos daqueles que pensamos ser apenas os mais importantes", diz o curador. "Os que foram escolhidos são excelentes artistas e representam um universo muito maior da arte contemporânea brasileira."Edward Sullivan, que tem estudado a arte brasileira e visitado o País inúmeras vezes nos últimos 20 anos, considera haver "poucas nações com tamanha variedade e riqueza visual como o Brasil". Para ele, nossa arte é tanto o produto da mistura de raízes indígenas, européias e africanas, como "o resultado final de um gênio particular capaz de criar alguma coisa única, diferente de qualquer fonte estrangeira".

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