Mostra lembra o pai do móvel moderno brasileiro

Joaquim Tenreiro (1906-1992), considerado pioneiro do móvel brasileiro, com suas elegantes criações em pés de palito, que deixaram para trás o pesado mobiliário europeu que fazia sucesso entre a burguesia nacional e adaptaram-se como uma luva ao arrojado projeto arquitetônico modernista que estava sendo gestado no País por figuras como Niemeyer, será lembrado a partir de hoje com uma ampla exposição na Galeria Jô Slaviero. Apesar de tratar-se de uma mostra comercial (todos os móveis estarão à venda por preços que variam de R$ 2,5 a R$ 45 mil), esta é também uma oportunidade de rever - ou conhecer - um importante capítulo da história do design nacional. Com 22 modelos diferentes de móveis, a maioria dos anos 50, considerada fase áurea de Tenreiro, a exposição pretende mostrar por que ele é considerado "o criador do verdadeiro móvel moderno brasileiro".Foram necessários três meses de garimpo para conseguir reunir essas peças, fornecidas por colecionadores particulares e comerciantes. Mas o projeto foi idealizado há mais tempo, tendo origem no desejo de Jô de recriar o ambiente original da galeria - originalmente a casa de seu pai, projeto de Miguel Juliano de 1957 e mobiliada por Tenreiro. A marchande viu nesse projeto uma possibilidade interessante de colocar a obra do criador dentro de seu contexto histórico e estilístico. Não se trata, segundo ela, de um resgate já que sua obra continua sendo admirada, como comprova a dificuldade cada vez maior de encontrar peças originais. "Ele não sai de moda", afirma ela, lembrando que há alguns anos a Pinacoteca do Estado realizou uma grande mostra sobre seu trabalho.No caso da exposição atual, Jô - que também assina o projeto de curadoria - buscou não apenas destacar peças importantes, como trouxe peças importantes para compreender sua trajetória artística. Afinal, além de criar móveis, Tenreiro teve uma participação importante no cena artística nacional. Português de nascimento, ele chegou ao País com apenas 3 anos. Seu projeto de vida era tornar-se pintor, mas acabou sendo levado pelas circunstâncias a aproximar-se da profissão de seu pai e avô, ambos marceneiros, com os quais aprendeu os primeiros passos do ofício com a madeira, material essencial em seu trabalho como designer, já que ele é considerado o primeiro a dar valor às inúmeras possibilidades do vasto leque de madeiras existentes no País, como a imbuia e o jacarandá, associando-as a elementos tradicionais do artesanato popular brasileiro, como a palhinha. "Quis desenhar móveis modernos, para o meu tempo e em função da realidade brasileira", resumia ele.Em um dos vários depoimentos que concedeu a Maria Cecília Loschiavo, autora de dois livros que tratam de sua obra - Móvel Moderno no Brasil e Tenreiro, publicado em parceria com Soraia Cals -, ele falou sobre a relação entre a arte de construir móveis e o ofício da pintura, que inicialmente tinha pensado seguir: "A atividade do móvel é criativa também e eu gostei muito de desenhar o móvel. O risco é a idéia do móvel, a criatividade é o sentido plástico do móvel. Uma vez tendo a idéia, a questão é planificar e executar. É como um pintor que imagina seu trabalho e vai para a tela executá-lo."Joaquim Tenreiro. De segunda a sexta, das 10 às 19 horas; sábado, das 10 às 16 horas. Jô Slaviero & Guedes Galeria. Alameda Gabriel Monteiro da Silva, 2.074, tel. 3061-9856. Até 20/12. Abertura hoje, às 20 horas.

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