Mostra latina é superior à brasileira

Apesar disso, filmes de hermanos não são exibidos comercialmente no País

Luiz Carlos Merten / GRAMADO, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2010 | 00h00

           

Premiados. Este ano, o Festival de Gramado privilegiou o cinema de autor, num formato que fugiu ao campeonato de filmes

 

 

 

 

Um dos mais tradicionais festivais do País, Gramado ganhou, em 2010, mais dois dias de exibições e debates. Como vem fazendo há quatro anos, os curadores José Carlos Avellar e Sérgio Sanz fizeram sua aposta no cinema de autor e num formato que não prestigia o campeonato de filmes nem o tapete vermelho. O que lhes interessa, por meio das mostras competitivas e de uma nova seção - Panorama -, que mostrou filmes à tarde, é estimular a troca de informações e dar visibilidade a um número maior de produções. Mesmo com eventuais equívocos - o belíssimo filme gaúcho A Última Estrada da Praia, de Fabiano Souza, exibido em Panorama, poderia e até deveria ter participado da competição -, atingiram seu objetivo. O diálogo entre tendências e métodos de produção, entre os próprios premiados, é prova de que sua proposta funciona.

Existem problemas que a organização de Gramado ainda precisa resolver. A afluência de público é reduzidas durante a semana, o que a assessoria de imprensa atribui ao Próprio formato de distribuição dos ingressos. O público consome avidamente os 30% de ingressos que lhes são colocados à disposição. Paga caro - R$ 50 e R$ 100, o preço mais caro entre festivais nacionais - e os convites distribuídos pelos patrocinadores é que produzem os brancos na plateia. Numa época em que se fala tanto em contrapartida social, os patrocinadores deveriam dar um jeito de distribuir seus convites para cinéfilos interessados.

De maneira geral, a mostra latina foi superior à brasileira e o problema é que a maiorias de seus títulos depois permanece inédita no mercado brasileiro. O grande vencedor como melhor filme dos júris oficial e popular, Mi Vida con Carlos, do Chile, é uma egotrip do diretor German Berger, que parte em busca de seu pai, morto pela ditadura de Pinochet. Berger não conheceu esse pai herói cujo retrato vai traçando a partir de reminiscências familiares, da mãe e dos tios. No desfecho, ele não apenas encontra esse pai mítico, como reúne a família em torno de seu projeto.

Pantanal. Outros dois filmes latinos ganharam prêmios importantes. El Vuelo del Cangrejo, de Oscar Ruiz Navia, acompanha esse estranho que chega a uma comunidade litorânea da Colômbia. O filme, nada conclusivo, constrói-se no limite entre ficção e documentário, com grande riqueza de observação e muita tensão erótica. Primeira ficção produzida em décadas na Nicarágua, La Yuma, de Florence Jaugey, não deixa de ser uma Menina de Ouro latina, contando a história de garota da periferia que sonha ser lutadora de boxe. O filme foi um grande e inesperado sucesso em seu país de origem e o curioso é que o título vem da personagem de Cristiana Oliveira na novela Pantanal, que bateu recordes de audiência e virou sinônimo de mulher rebelde, aguerrida e um tanto viril para o público nicaraguense. A atriz Alma Blanco, que faz o papel, ganhou o prêmio da categoria. Foi seu quinto troféu como melhor atriz, uma verdadeira consagração para a garota que veio da dança (originalmente, é bailarina).

Além dos prêmios merecidos para Bróder e Não se Pode Viver sem Amor na competição brasileira, o júri atribuiu um prêmio especial para O Último Romance de Balzac, de Geraldo Sarno. O filme mais experimental da mostra nacional - ou o mais interessante - investiga a hipótese de que o livro Cristo Espera por Ti teria sido transmitido ao médium Waldo Vieira por ninguém menos do que o espírito de Honoré de Balzac. Aspecto curioso é que, na apresentação dos finalistas aos prêmios de melhor ator e atriz, em ambas as mostras - brasileira e latina - havia mais concorrentes masculinos do que mulheres. Se foram minorias na ficção, as mulheres - mães - foram fortes nos documentários chileno (Mi Vida con Carlos) e brasileiro (Diário de Uma Busca, de Flavia Castro, que ganhou o prêmio da Crítica).

PRINCIPAIS PREMIADOS

MOSTRA NACIONAL

Filme: Bróder

Diretor: Jeferson De (Bróder)

Ator: Caio Blat (Bróder)

Atriz: Simone Spoladore (Não se Pode Viver sem Amor)

Fotografia: Luis Abramo (Não se Pode Viver sem Amor)

Roteiro: Dani Patarra e Jorge Durán (Não se Pode Viver sem Amor)

Prêmio Especial do Júri: O Último Romance de Balzac (Geraldo Sarno)

Prêmio da Crítica: Diário de Uma Busca (Flavia Castro)

MOSTRA LATINA

Filme: Mi Vida con Carlos

Diretor: Nicolas

Pereda (Perpetuum Mobile)

Ator: Gabino Rodriguez

(Perpetuum Mobile) e Martin Piroyansky (La Vieja de Atras)

Atriz: Alma Blanco (La Yuma)

Fotografia: Miguel Littin (Mi Vida com Carlos)

Roteiro: Pablo Meza (La Vieja de Atras)

Prêmio Especial do Júri: La Yuma (Florence Jaugey)

Prêmio da Crítica: El Vuelo Del Cangrejo (Oscar Ruiz Navia)

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