Mostra investiga evolução da luz na arte nacional

Com quase 180 obras centrais da arte brasileira dos últimos dois séculos, realizadas por mais de 110 artistas, a exposição Trajetória da Luz na Arte Brasileira nem precisaria de um tema inovador para tornar-se um programa imperdível. No entanto, o que poderia ser um interessante panorama da nossa produção artística ganha novo brilho graças ao esforço do curador Paulo Herkenhoff em investigar como evoluiu no Brasil uma questão vital para a arte em qualquer tempo ou lugar: a luz.A mostra tem início no século 19, com o rompimento dos cânones barrocos pelo neoclassicismo. Evidentemente, a luz também é tema do barroco, estilo que marcou a arte brasileira do século 17 ao 19, mas Herkenhoff defende que só com a laicização da arte ela começa a ser usada para conceituar, apontar valores. Mostrando uma tela de Nicolas Taunay, considerado o maior pintor das Américas na época, ele indica como o artista lança mão de uma luminosidade mais intensa sobre determinados pontos para enfatizar a importância da vida civil e econômica e sua ação sobre a impactante natureza local. O além-mar, que mergulha em sombras, já não interessa muito.A seleção relativa ao século 19 - feita com a imprescindível ajuda da curadora-assistente Valéria Picolli - enfatiza diversas questões, como o surgimento da pintura ao ar livre (que só foi possível graças a avanços técnicos), a indiscutível modernidade de mestres como Visconti, a pintura de gênero, a permanente relação com o que se fazia nos centros europeus...Um dos pontos altos da mostra são as quatro telas de Castagneto, reunidas numa longa parede que reúne apenas obras brancas (questão que já interessava Herkenhoff desde a curadoria da 24.ª Bienal, em 1998). Surpreendentemente, o pintor retrata a paisagem "com uma luz tão intensa, aberta, que o espectro de cor fica quase reduzido ao branco", explica o curador. É impressionante a relação com o que o venezuelano Armando Reverón faria algumas décadas depois.Herkenhoff acredita que a luz é a questão mais bem resolvida da arte brasileira do século 19, "que permitiu trazer o País para dentro da arte", que merece ser resgatada após ter sido relegada ao ostracismo pelo modernismo e pela crítica posterior.No que se refere ao século 20, as questões tratadas pela mostra talvez sejam ainda mais amplas. Ao longo do complexo espaço expositivo (dividido em vários andares), há a cor expressionista de Anita Malfatti e Lasar Segall, a cor local de Tarsila e Volpi, a luz moral de Oswaldo Goeldi (uma das figuras centrais de uma parede de obras em negro, que se contrapõe de forma instigante à seleção de obras brancas, citada anteriormente), a luz como metáfora política.E, mais recentemente, ela chega a constituir a própria dinâmica da obra, tornando-se a matéria-prima. Quer a própria lâmpada transformada em escultura (Palatnik, Nelson Leirner, Leda Catunda), quer a apropriação de questões assemelhadas, como a transparência explorada por meio de elementos como o vidro, o brilho e a opacidade (Leonilson, Nina Moraes) ou até mesmo do uso da fotografia como metalinguagem sobre o tema.Herkenhoff não vê essa sua exposição como uma leitura definitiva da questão, mas como parte de um esforço conjunto para compreender melhor nosso passado e nosso presente. "Acho que o Brasil precisa de sínteses", diz o curador que, apesar de estar na equipe curatorial do Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova York, diz preferir fazer curadorias no Brasil e que só continuará no MoMA a partir do ano que vem se puder dedicar-se mais a esse tipo de atividade.Trajetória da Luz na Arte Brasileira - De terça a sexta das 10 às 21 horas; sábado, domingo e feriado, das 10 às 19 horas. Itaú Cultural. Avenida Paulista, 149, tel. 238-1700. Até 9/9. Abertura sábado, às12 horas.

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