Mostra incentiva revisão da arte de Henri Matisse

Na Tate Modern, em Londres, exposição detalha a beleza e exuberância da última fase da carreira do pintor francês

MARIA HIRSZMAN, ESPECIAL PARA O ESTADO / LONDRES, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2014 | 03h14

Nos últimos anos de sua vida, com a saúde fragilizada e capacidade limitada de movimentos, Henri Matisse (1869-1954) reinventa sua arte, criando um universo de formas e cores fascinantes usando apenas tesoura e papéis coloridos. O que originalmente começa como forma de driblar a impossibilidade física acaba por tornar-se o que o artista define como uma segunda vida, uma libertação, um novo e fértil campo de experimentação, que pode ser amplamente revisitado em mostra atualmente em cartaz na Tate Modern, em Londres.

Reunindo mais de 120 obras realizadas por Matisse nas décadas de 1940 e 1950, a exposição é um interessante mergulho no processo criativo do artista e uma oportunidade única de ver reunidas num mesmo espaço trabalhos normalmente dispersos em diversas coleções, extremamente frágeis, e que dificilmente se reencontrarão novamente. Por exemplo: Caracol (1953), peça chave da coleção da Tate e que surpreende por seu caráter fortemente abstrato, nunca saiu do museu inglês desde sua aquisição em 1962. Esta também é a primeira vez que é possível admirar em conjunto as quatro versões do Nu Azul, todas realizadas em 1952, num dos núcleos mais potentes e elucidativos da seleção. É impressionante notar, para além da enorme semelhança temática e formal, os diferentes recursos e soluções adotados pelo artista em cada uma delas, observar como variam em estrutura, grau de complexidade e dinamismo. Destaca-se a versão número IV, a primeira da série a ser iniciada e a última a ser concluída. Nela, a figura tem um corpo agitado, graças à superposição vibrante de formas orgânicas recortadas.

Organizada cronologicamente, a mostra começa com as primeiras experiências de Matisse com a prática da colagem. Inicialmente, o método é explorado de forma tímida, para ir pouco a pouco ganhando autonomia e densidade, plástica e poética. O espectador é apresentado inicialmente a experiências contidas, de recriação em papel de obras já executadas em pintura, como as peças homônimas Natureza Morta com Conchas (1940) exibidas lado a lado. E descobre como a nova técnica é explorada pelo artista como instrumento eficaz para o desenvolvimento de projetos em diferentes áreas como o balé e a gravura. O álbum Jazz, de 1943, um dos mais importantes livros de artista do século 20, é exposto na Tate de forma generosa, com uma rica contraposição entre as matrizes em papel recortado e as gravuras feitas a partir delas. Consta que Matisse não gostou muito do resultado, devido ao caráter mais chapado da impressão, o que o levou a mergulhar de forma ainda mais intensa nesse novo universo e a um crescente domínio do processo de recorte e colagem.

Com o passar do tempo, os trabalhos assumem um caráter cada vez mais radical. Tornam-se mais sintéticos, passam a ocupar superfícies cada vez maiores e exploram uma gama impressionante de cores sedutoras. Suas formas orgânicas provêm de temas sempre caros ao artista, como a dança, ou memórias adormecidas, como às de viagens feitas décadas antes ao Marrocos e à Oceania.

Um dos maiores méritos da exposição que, após uma longa exibição em Londres, será apresentada no MoMA, em Nova York, é apresentar de maneira cautelosa não apenas a produção pronta e aclamada, mas também explicitar como brota na cabeça do artista e ganha corpo por meio de esforço contínuo, incessante. Sem cair num excessivo didatismo, recorre a fotos, vídeos e objetos (como as fascinantes amostras de papel e vidro, com toda a gama de cores usada nos recortes e nos vitrais), desvelando ao público esse processo criativo.

Matisse transformou seu apartamento em um grande laboratório, tendo muitas vezes várias composições sendo arquitetadas simultaneamente em diferentes cômodos da casa. O sistema era simples: o artista sempre tinha à mão uma pilha de papéis coloridos à guache em cores previamente selecionadas por ele, recortava sucessivas formas, que iam posicionadas por seus auxiliares segundo suas instruções e sendo afixadas à parede com a ajuda de alfinetes. Mesmo que algumas obras tenham um caráter de espontaneidade e pareçam nascidas de um estalo criativo, estudos revelam um processo compositivo complexo e tortuoso. Somos informados, por exemplo, que análises laboratoriais encontraram mais de mil furinhos de alfinete em Acanto, projeto para um painel de cerâmica realizado em 1953, testemunhando assim as sucessivas adaptações e arranjos estudados por ele.

Nesses trabalhos, injustamente apontados por parte da crítica na época como brincadeiras de um octogenário, Matisse atinge um ponto culminante de sua vasta obra, marcadamente sensual. Combina uma capacidade de síntese e uma complexidade compositiva impressionantes. E dá um passo além, descobre como moldar a cor a seu desejo, prescindindo da linha do desenho, dando-lhe corpo autônomo e potente, numa equilíbrio perfeito entre o prazer da forma e o embate com a matéria.

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