Mostra faz uma restrospectiva de Cildo Meireles

Depois do sucesso obtido em Nova York, sendo considerada uma das três melhores exposições do ano na cidade pela Time Out, finalmente chega ao Brasil a retrospectiva de Cildo Meireles. Com quatro grandes instalações e mais de 20 objetos e desenhos, a mostra que será inaugurada na próxima semana no Museu de Arte Moderna (MAM) não tem a pretensão de traçar a evolução temporal desse artista que a cada dia se confirma como um dos maiores nomes da produção contemporânea nacional. Até porque Meireles não se atém às limitações do tempo. Sua obra é cheia de idas e vindas, segundo ele por circunstâncias aleatórias.O próprio Cildo prefere chamar a exposição de seleção de trabalhos, seleção essa que varia de acordo com o local de exposição. Desvio Para o Vermelho, por exemplo - uma das grandes atrações da 23.ª Bienal e da recente exposição no New Museum of Contemporary Art -, vai ficar de fora. Através, a única instalação que Meireles fazia questão de mostrar, também acabou sendo cortada da exposição por falta de espaço.Em compensação, os paulistanos terão a oportunidade de conhecer alguns dos trabalhos de sua autoria que há algum tempo vêm circulando pelo mundo. Logo na entrada do museu está Fontes, apresentado em 1992 na Documenta de Kassel, e que deixa evidente o complexo mundo em que o artista opera. Esse asfixiante espaço dominado inteiramente pelas cores amarela e preta - inspiradas por uma tela de Van Gogh - aponta vários caminhos. Provoca ao propor uma viagem sensorial, remete a questões formais da obra de arte e brinca com as relações de tempo e espaço tão caras a Meireles.Também fazem parte da exposição as instalações Volátil, Cinza e Entrevendo. As noções de risco, contaminação e efemeridade presentes nesses trabalhos são tão simples quanto universais, daí talvez seu alcance internacional. "De certa maneira, ao longo da vida, ou por irresponsabilidade ou presunção, meus trabalhos tratam desses grandes temas", diz o artista, que está na capa da revista Art In America de julho.Uma das características mais marcantes de sua produção é a reflexão política, no sentido mais nobre do termo. "O trabalho não é político, torna-se político", diz ele, na tentativa de desvincular sua obra de qualquer conotação panfletária.Os grandes trabalhos dessa retrospectiva parecem realmente mais vinculados às pesquisas formais, embora as peças vitais para a compreensão da obra de Meireles, como as séries Inserções em Circuitos Ideológicos e Espaços Virtuais, reflitam intensamente o cenário sociopolítico em que foram produzidas. A economia também é um assunto central na obra de Meireles. Na verdade, como define o crítico Paulo Herkenhoff, o que Cildo faz é "uma teoria poética da sociedade".Memória - Não há como não relacionar os Cantos (representados em duas versões no MAM) com a completa falta de perspectiva existente no País no fim da década de 60. Mesmo fazendo Tiradentes: Tótem-Monumento ao Preso Político (performance realizada em Belo Horizonte durante a qual queimou vivas dez galinhas) pouco tempo depois, o artista insiste que o que o levou a fazer os Cantos foi uma preocupação de ordem estética e formal, aliada a uma memória infantil.Quando tinha 8 ou 9 anos, ele diz ter visto sair de um dos cantos da casa de sua avó uma mulher assustadora, com as unhas pintadas e fortemente maquiada vindo em sua direção, até que ele a espantou com todas as orações de que se lembrou. "Isso ficou dormindo na minha cabeça até 1967", conta ele. Essa não é a primeira vez que Cildo vai buscar inspiração criativa nas memórias de infância. Algumas vezes, ele convive por anos com a idéia de algum trabalho até conseguir realizá-lo.É o caso, por exemplo, da instalação Glove Trotter, que Meireles expõe a partir de terça-feira (25) na Galeria Luisa Strina. Tudo começou com um complexo projeto para o MoMA tendo como tema a celebração do descobrimento da América em 1992, que acabou ficando inviável por falta de tempo. Elementos de alta carga simbólica, como balas de revólver e ovos que seriam colocados de pé, foram deixados de lado e surgiu uma obra fascinante, extremamente sedutora e de grande simplicidade. Ao cobrir esferas de diferentes dimensões com uma malha de ferro, Cildo criou uma fascinante paisagem lunar. "Imaginei o gesto do sujeito que lança uma rede, uma malha medieval sobre esferas, metáforas de outros mundos", explica."Embora venha de uma cultura impregnada pelo barroco, sempre me interessei pela poética da síntese, da condensação; minha obra aspira à condição de densidade, grande simplicidade, objetividade, abertura de linguagem e interação (...) Tendo a me identificar e ter empatia com obras que têm um resultado final simples e concentrado, mesmo que essa simplicidade seja mera aparência", diz o artista em entrevista publicada no livro sobre sua obra, que está sendo lançado simultaneamente à retrospectiva pela editora Cosac & Naify.Monografia -Trata-se, na verdade, da versão brasileira da monografia editada inicialmente pela Phaidon Press para acompanhar a mostra nova-iorquina e que reúne textos do crítico Paulo Herkenhoff e dos curadores da exposição, Gerardo Mosquera e Dan Cameron.Lidando com a ambigüidade dos materiais e de seus significados, Meireles propõe um jogo ao espectador, o provoca com situações inusitadas, com ironias e sensações que têm por objetivo fazê-lo pensar. O humor é um elemento-chave, que segundo Meireles deveria ser cultivado por todo mundo. "O velho mestre Duchamp fala que o humor - não necessariamente a ironia e o sarcasmo - era seu principal material de criação", lembra.Cildo Meireles parece estar em todas as partes neste frio inverno paulistano. Além das exposições no MAM e na Galeria Luisa Strina, seu trabalho ainda é submetido à lente do crítico e amigo Frederico Morais, na mostra Trabalho de Artista, em cartaz no Itaú Cultural (onde também podem ser vistos um vídeo e uma espécie de retrospectiva virtual de seu trabalho) e está presente no segmento de arte contemporânea da Mostra do Redescobrimento.No megaevento, o artista participa com um trabalho novo, que só havia sido mostrado na Alemanha e na Coréia do Sul, intitulado Strictu e criado sob o impacto do violento discurso do líder da Ku Klux Klan, pegando o controle do tempo, do espaço e das mentes.

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