Mostra expõe raridades da obra de Cervantes

Um dos itens mais importantes da Divisão de Obras Raras da Biblioteca Nacional é a Coleção Cervantina, com 1.300 publicações sobre o escritor espanhol Miguel de Cervantes e edições de sua obra-prima, o romance Os Feitos do Engenhoso Cavaleiro d. Quixote de la Mancha. Vinte e nove itens desse acervo, até mesmo uma edição datada de 1673, menos de 60 anos após a primeira publicação do romance, estarão expostas na Biblioteca Nacional, a partir desta quarta-feira, até 23 de agosto.A mostra é um complemento da exposição Esplendores de Castela, programada em função da visita dos reis Juan Carlos e Sofia de Bourbon, no prédio ao lado, o Museu Nacional de Belas Artes, com a arte produzida na Espanha entre os anos 1580 e 1640. Nesse período, o Brasil fez parte dos domínios espanhóis e Miguel de Cervantes é o principal escritor da época, mesmo tendo ficado famoso apenas com seu Dom Quixote, ao contrário de seu contemporâneo inglês, William Shakespeare, com dezenas de peças conhecidas.Mas talvez Dom Quixote tenha tido tantas edições quanto todas as obras do dramaturgo inglês. Segundo a curadora da exposição, Rejane Benning, só na Biblioteca Nacional existem mais de mil exemplares de edições diferentes, "que são apenas uma ínfima parte do que já foi publicado no mundo inteiro". Seu critério foi escolher o mais significativo do acervo - como duas edições em espanhol, de 1723 de 1780, que pertenceram a d. João VI -, as traduções inusitadas deste século - para japonês, húngaro, grego e iídiche - e edições ilustradas por artistas como Salvador Dalí e Cândido Portinari (esta com comentários de Carlos Drumond de Andrade).Consenso - "Quisemos mostrar como um romance escrito há quatro séculos influenciou todas as gerações posteriores a seu lançamento e não perdeu a força até hoje", comenta Rejane. "Completamos a exposição com dois outros livros menos conhecidos dele, Trabajos de Persiles y Sigismunda Historia Setentrional e Novelas Ejemplares, continua ela. "Há um consenso de que, se Cervantes não tivesse feito tanto sucesso com Dom Quixote, teria garantido seu lugar na literatura universal com as Novelas."Dom Quixote é o cavaleiro andante fora de época, primeiro anti-herói da ficção, cuja ética medieval se choca com o mundo pós-renascentista. Foi publicado pela primeira vez em 1605, já com sucesso, e reeditado pelo autor em 1615, um ano antes de sua morte. Nesta segunda edição, Cervantes incluiu um prefácio justificando o livro, uma aula de ironia e estilo. Na exposição da Biblioteca Nacional, uma edição de 1871, que pertenceu ao colecionador Genival Londres, traz um fac-símile do livro original.Se a vida de Dom Quixote rendeu um clássico, a de seu criador daria um outro, da literatura de capa e espada. Cervantes nasceu em Alcalá, em 1547, filho de um cirurgião e publicou seus primeiros poemas aos 22 anos. Depois disso, tornou-se militar e foi feito escravo por corsários argelinos. Só em 1580, aos 37 anos, foi libertado e, de volta a Madri, tornou-se funcionário público. Mas desavenças políticas o levaram à cadeia. Sabe-se que escreveu para teatro nessa época, mas apenas duas comédias de ação ficaram até hoje, O Cerco de Argel e O Cerco de Nunância. No século seguinte, retomou seus escritos, para publicar, em 1605, a primeira edição de Dom Quixote.Logo após sua morte, em 1616, na mesma época de Shakespeare, apareceram biógrafos tentando decifrar sua vida. Os fatos públicos estavam registrados em arquivos estatais ou de igrejas, mas pouco se descobriu sobre sua personalidade ou vida privada, a não ser seu casamento, aos 28 anos, com Catalina de Salazar. A mostra da Biblioteca Nacional se abstém de desvendar o criador para enfatizar a importância da criatura, Dom Quixote.

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