Mostra exibe imagens poéticas do fotógrafo João Musa

Os quase 40 trabalhos que João Musa expõe na Galeria Brito Cimino, em sua primeira individual num espaço comercial, dizem muito da trajetória do fotógrafo, que soube conciliar como poucos uma profunda dedicação ao métier da fotografia - com seus requintes técnicos e conceituais - e uma visão poética do mundo. A mostra não tem título, mas se há um conceito que permeia essas imagens é o dos caminhos e encontros.A idéia de deslocamento, afinal, é central em sua trajetória. A relação do homem com a natureza e com a cena urbana foram, respectivamente, os temas de suas teses de mestrado e doutorado. E continua de certa maneira conduzindo seus trabalhos mais recentes. A exposição busca contemplar as várias fases de seu trabalho, do início da década de 90 até hoje. Ali estão a natureza bruta; os vestígios da ação humana (como a estranha e sedutora imagem de um depósito de lavagem de minério de alumínio, de um intenso tom de laranja); o requinte do passante que soube captar momentos preciosos, mesmo que banais, da cena parisiense e nova-iorquina; provocantes jogos entre céu e terra, desvirtuando e recriando linhas do horizonte; e sobretudo uma relação extremamente pictórica com o mundo. Talvez isso ocorra pela atenção que ele dá à pintura. Ou pela atenção extremada com o tratamento da cor, da luz e da composição que vemos em suas obras. "Tudo é um misto entre o que se vê e o que se sente", tenta explicar o fotógrafo.A importância da técnica é absolutamente central em sua produção. Utilizando o que existe de mais moderno no campo da fotografia, a imagem (seja ela captada em digital ou película) é apenas parte do processo. Ela é segmentada, retrabalhada para resgatar os reflexos, suavizar a cena e preservar as cores.Incomodado com o metamerismo - termo que define a mudança da cor do pigmento com a alteração da luz ambiente - ele vem pesquisando há anos as técnicas de impressão fotográfica em busca de uma fidelidade precisa. Chegou inclusive a desenvolver um projeto de pesquisa com o apoio da Bolsa Vitae nessa tentativa de devolver ao fotógrafo o controle sobre a cor em seu trabalho e já publicou vários livros sobre o assunto.Ele próprio imprime seus trabalhos, com papéis, tintas, impressoras e programas de software especiais. Por exemplo: o belíssimo papel, fosco e de puro algodão, que ele usou nos trabalhos expostos no andar superior é fabricado pela indústria alemã Hahne Mühle (fundada no século 16 e especializada em papel para gravura), só agora começa a ser lançado no mercado. As matrizes em negativo são trabalhadas em arquivo raw, que permitem um melhor processamento das cores. Muitas vezes são usadas mais 900 para reproduzir a imagem da maneira mais fiel possível. Não da maneira como supomos a realidade, mas sim daquela realidade vista e sentida por ele e compartilhada com aqueles que cruzam o seu caminho. João Luiz Musa. Galeria Brito Cimino. Rua Gomes de Carvalho, 842, Vila Olímpia, 3842-0635. 3.ª a 6.ª, 11 h às 19 h (sáb. até 17 h). Até 29/7

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