Mostra em Roma traz 'diário ilustrado' de Fellini

Desenhos e anotações que ficaram guardados durante anos são expostos em 'O Livro dos Meus Sonhos'

Valquíria Rey, BBC

22 Outubro 2007 | 09h40

Uma exposição com desenhos de Federico Fellini, apresentada no Auditorium, em Roma, está sendo apontada como uma grande oportunidade para se entender melhor a genialidade do cineasta italiano. A mostra O Livro dos Meus Sonhos é uma seleção de algumas das 400 páginas de pensamentos, desenhos, ilustrações e fantasias que o diretor anotava como uma mania compulsiva numa espécie de diário composto em duas fases de sua vida: de 1960 a 1968, e de 1973 a 1990. "É uma mistura de romance, diário, história em quadrinhos e storyboard de um filme", explicou Tullio Kezich, curador da exposição e amigo de Fellini por quatro décadas. "São dois enormes volumes que revelam seu mundo mais autêntico, seu modo de evocar emoções, a maneira que ele escolheu para revelar seus sonhos." Na mostra, são apresentadas grandes reproduções dos desenhos originais do diretor, divididas em oito seções, indo das Noites de Pesadelo, com imagens de catástrofes, guerras e mortes, a Amarcord e Rimini, com detalhes de sua vida pessoal, de recordações da infância e a mulher Giulieta Masina. A exposição ainda traz caricaturas de famosos que o cineasta conheceu, como Picasso, Sophia Loren e Luchino Visconti. "O Livro dos Meus Sonhos é um tipo de mito, uma obra secreta e misteriosa. Conhecíamos apenas algumas coisas, cerca de 20 desenhos que tinham sido publicados pelo próprio Fellini. Mas o corpo do texto permanecia um mistério para muitos de nós", recorda Vittorio Boarini, diretor da Fundação Fellini. Segundo ele, os dois volumes ficaram lacrados durante anos em um banco de Rimini, cidade natal do cineasta. Há pouco mais de um ano, depois de uma longa negociação com os herdeiros de Fellini, a Fundação conseguiu adquiri-los. A Superintendência para os Bens Culturais de Florença estimou o valor da obra em 750 mil euros. Além da mostra, que vai até 7 de novembro, os dois volumes serão transformados em livro, reproduzidos como O Livro dos Sonhos e Oniricon, álbuns nos quais o cineasta anotou seus sonhos inescrupulosamente por mais de 20 anos a pedido de seu psicanalista junguiano Ernst Bernhard. O primeiro, pesando oito quilos e considerado o mais precioso entre os dois, será produzido em mil cópias numeradas, que serão vendidas na Itália por 300 euros. Já a outra versão terá dimensões menores e custará 95 euros. Os dois formatos compreenderão todos os 400 desenhos de Fellini, morto em 1993, reproduzindo fielmente as medidas dos originais. Fellini começou a desenhar aos 15 anos e não parou mais. Nos esboços, misturavam-se inúmeros temas, que mais tarde seriam aproveitados em seus filmes. "Todos esses desenhos devem ser estudados e decifrados, para que possamos entender um pouco mais o gênio que foi Fellini", assinalou o jornalista Vincenzo Mollina. "Se ele não tivesse sido um diretor de cinema, poderia ter escolhido qualquer outra profissão: escritor, ilustrador, desenhista de histórias em quadrinhos. Fellini conseguiu coincidir a vida a olhos abertos e esta a olhos fechados." Segundo o jornalista, durante a adolescência, Fellini não imaginava que poderia se tornar um cineasta. Ele acreditava que seria pintor.

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