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Mostra em Paris relembra dois mil anos da morte de Augusto, o primeiro imperador de Roma

Exposição em cartaz no Grand Palais reúne esculturas, afrescos, mobiliário e prataria

Andrei Netto, O Estado de S. Paulo/Paris

30 de março de 2014 | 03h00

Culto à personalidade e narrativas grandiloquentes sobre seus próprios feitos militares são práticas políticas de ditadores ainda hoje. Mas talvez nenhum líder mundial dessa extirpe tenha exercido tamanha influência em seu tempo – e em todos os tempos – quanto Augusto, o primeiro imperador de Roma, morto há dois mil anos. 

Por trás desse conquistador colonialista, havia um grande incentivador das artes e da cultura em um império florescente. Esse é o tema de uma mostra em cartaz no Grand Palais, em Paris, que reúne esculturas, afrescos, mobiliário e prataria que reconstituem a vida e a morte de um dos homens mais influentes da História.

A exposição Eu, Augusto, Imperador de Roma (Moi, Auguste, empereur de Rome) foi aberta ao público em 19 de março e segue até 13 de julho. Sua realização é antes de mais nada mérito do arqueólogo italiano Eugenio La Rocca, professor da Universidade Sapienza, de Roma, uma autoridade no que diz respeito à história desse colosso político, com mais de 20 livros publicados sobre o tema. Foi dele a ideia de realizar uma exposição que celebrasse os dois mil anos da morte de Augusto, a quem os comissários – os franceses Cécile Giroire e Daniel Roger e os italianos Annalisa Lo Monaco e Claudio Parisi-Presicce – se referem como “o unificador do mundo romano”.

Organizar a mostra foi um trabalho de coordenação internacional. Para apresentá-la pela primeira vez, na Scuderia del Quirinale, em Roma, entre outubro de 2013 e fevereiro passado, foram reunidas obras pertencentes aos acervos de grandes museus da Europa, como o Louvre, os italianos Quirinale e Capitolio e o inglês British Museum. O resultado é uma verdadeira aula magna de história, elogiável não só por sua riqueza artística singular, mas também por seu poder de síntese sobre a Roma do período.

Augusto morreu em Nola, cidade de 30 mil habitantes situada na província de Nápoles, em 19 de agosto de 14 d.C. Sua influência, porém, sustentam os comissários, se irradia até os nossos dias, ainda que a história antiga nos pareça distante demais. “Primeiro Estado administrado capaz de ultrapassar de forma sustentável a escala da cidade, Roma veicula um sonho de unidade que inspirou todos os conquistadores da história europeia”, argumentam, admitindo que, na política, na religião, nas escolhas artísticas e na vida privada, nas concepções, ideais e crenças a Idade Antiga não se assemelha à Contemporânea. Mas alguns personagens superam o tempo. “Augusto talvez chegue ao nosso alcance”, advertem. 

Retrospectiva. Talvez o tom fascinado e elogioso de Moi, Auguste… possa incomodar alguns historiadores – não há referências maiores a temas como a escravidão, por exemplo, que persistiu no Principado, como o início da fase imperial é denominada por historiadores. Mas, de toda forma, a lição de história está lá. A exposição se propõe a uma retrospectiva dos principais momentos da transição de Júlio César a seu filho adotivo Otaviano, ao qual se daria o nome de Augusto.

No percurso da exposição, estão sete grandes etapas de seu governo: as guerras civis, com destaque para o triunvirato, para a batalha de Actium, em 29 a.C., a conquista do Egito e as consequentes derrotas de Marco Antônio e Cleópatra; sua ascensão pública como líder político e a reforma urbana de Roma; a transformação do monte Palatino em centro de residência e de cultura dos ricos patrícios; a renovação artística e a contribuição da cultura e da tradição gregas; a vida privada dos romanos durante o período; as conquistas, derrotas e a consolidação das fronteiras do império, com destaque para a Gália, para os enfrentamentos com os Germanos e a estabilização da península ibérica, antes hostil; a organização monetária e financeira das províncias; e enfim sua morte, aos 75 anos, e sua divinização.

É na primeira parte, Otaviano e as Guerras Civis, que talvez esteja o maior valor da exposição. Trata-se do contexto histórico em que Augusto chegou ao poder e de como começou a construir sua celebridade como líder, a partir de uma estratégia de disseminação de sua imagem pelo Principado. Ali estão múltiplas esculturas sobre si mesmo que foram distribuídas pelos domínios por Roma, em um culto à personalidade típico das ditaduras. Também está a iconografia de suas vitórias militares, como a da batalha de Actium, evento decisivo em sua afirmação como imperador – e, em última análise, na afirmação de Roma como império, abandonando a república.

Essa iconografia de Augusto como líder, vencedor e pacificador marca também a entrada de Roma em uma nova idade de ouro, após as guerras civis fratricidas. Esse período é marcado pelo enriquecimento da metrópole e de suas províncias – o imperador orgulhava-se de ter pego uma cidade de barro e entregue uma de mármore – e também explica a efervescência artística que acompanhou o desenvolvimento. 

A partir de suas conquistas, Augusto tornou sua capital em um centro para o qual afluíam artistas de todas as origens, grega em especial, o que contribuiu para o aprofundamento da tradição originária da Grécia na cultura romana – pedra fundamental da cultura do Ocidente contemporâneo. “Seu longo reino (de mais de 40 anos) é marcado pela efervescência artística excepcional: o ‘século de Augusto’, assim como o nome de ‘Mecenas’, próximo do imperador e protetor de Virgílio, Propércio e Horácio, tornaram-se referências culturais míticas”, dizem os comissários.

A riqueza da exposição está no fato de que cada uma de suas etapas, cruciais na história de Roma e, em última análise, da humanidade, é ilustrada por obras de arte maiores, como as esculturas Augusto de Prima Porta, carregada de valor simbólico e histórico em seus adornos, o retrato de Augusto de Meroe, encontrado no Egito, Nióbidas em Fuga ou ainda Lívia em Ceres ou em Fortuna. Além delas, estão fragmentos de templos, teatros, fóruns, telas, utensílios originais, moedas então em circulação, além de gráficos e vídeos sobre essa época de ouro no império. Moi, Auguste… é um belíssimo tributo a um conquistador. Seu erro talvez seja esse: ser um tributo. 

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